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afonsonunes

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A primeira e a segunda faces da sucata já são demasiado conhecidas, sobretudo pelo muito que se tem dito e escrito nestes últimos dias. Tal como já nos identificaram sucateiros de todos os tipos e feitios, que vão desde aqueles que se ocupam no ferrugento ferro velho, até aos que não saem das alcatifas e dos ares condicionados.
A verdade é que também as alcatifas e os ares condicionados vão para a sucata e, uma vez por outra, com essas coisas, lá vão os seus usufrutuários, embora só quando o rei faz anos. Parece que o rei está, agora, para fazer anos, mas há a possibilidade de calhar num dia vinte e nove de Fevereiro, sabe-se lá de que ano.
Mas, tudo isto se passa na face oculta, em contraponto com a face visível disfarçada com uma meia máscara, multicolor, com algumas cores muito esborratadas e, mesmo assim, muito aproveitadas por quem sabe da coisa. Até eu, que não sei de coisa nenhuma, tenho o mau hábito de tirar umas colheradas de onde não sou tido nem havido.
É por isso que me lembrei da terceira face da sucata, que tem a ver com a sua origem, sempre muito importante, quando queremos ir ao fundo da questão. E aqui, a questão é muito simples. “Suqata”, termo árabe que, provavelmente, por cá deixou esta prenda valiosa, que é a sucata. E, quem sabe, se não foram os árabes os primeiros sucateiros que por cá se amanharam.
Parece-me que isso se explica facilmente, se atendermos a que, sucata, pode significar ferro velho. Como por aqui não havia ferro novo nessa época, não tiveram outro remédio senão pegar no que havia, para ganhar a vida honradamente. Sim, porque então não era proibido negociar com ferro velho, até porque também não havia carros de luxo para oferecer como prendas a quem se encostasse aos sucateiros.
Depois, sucata, também pode significar objectos inúteis ou coisas inúteis, o que me leva a pensar que os sucateiros procuravam, principalmente, os sujeitos inúteis, para com eles se entenderem sobre as melhores inutilidades. Passado pouco tempo, todos eles começaram a arabescar, que é fazer enfeites com arabescos, como meio de ganhar a vida.
Dessa actividade mais ou menos intensa, onde prosperavam os árabes e as arabescas, surgiram os nossos homens das arábias, esses sim, os autênticos sucateiros e seus associados dos dias de hoje, que são a nata de uma sociedade verdadeiramente laboriosa e negociadora, segundo o mais moderno processo de marketing, tão moderno que até ainda há quem considere ilícita, toda essa actividade à volta do ferro novo.
Sim, porque hoje já não há ferro velho, nem objectos inúteis, nem coisas inúteis. Todos sabemos que tudo isso se transforma em carros de alta cilindrada e até em sacos de notas, em papel, novinhas em folha, prontinhas a usar ou a exportar para qualquer paraíso real.
Portanto, a terceira face da sucata, inclui as pessoas para quem o mundo é um monte de lixo, onde elas são o estrume, que resulta do que sobra de outras transformações.