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afonsonunes

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Um comprimido é uma coisa pequena, resultado de uma redução de volume dessa coisa que tinha maiores dimensões, antes de sujeita a uma pressão elevada. É, portanto, uma coisa apertada, achatada, oprimida. Isto, quando falamos genericamente de uma coisa qualquer, feita de um qualquer material.
Já quando falamos do comprimido da indústria farmacêutica, a coisa continua a ser pequena e achatada, resultado do mesmo processo de compressão de substâncias medicamentosas secas. Também quanto a elas se pode falar de apertos e opressões dos pobres comprimidos.
Imagine-se a vida de muita gente se, de um momento para o outro, lhe retirassem a possibilidade de recorrer ao comprimido da ordem, quando as coisas dentro da cabeça não vão lá muito bem. E podem não ir mesmo nada bem, só de pensarem que não têm ali à mão o comprimido salvador.
Depois, sem o comprimido e o seu efeito psicológico na doença, principalmente, da cabeça, muitas pessoas de mais idade, deixariam de ter motivo de conversa umas com as outras. Os médicos, as consultas, as doenças reais e imaginárias, são o tema quase exclusivo do relacionamento entre elas.
O comprimido tornou-se o centro da vida de quase toda a gente, se considerarmos que já quase ninguém pode passar sem o seu, uma ou várias vezes ao dia, e até à noite, mesmo na cama, quando o sono teima em ser substituído pelo efeito dominador de pensar no comprimido.
Uma coisa tão pequena, mas tão poderosa, que tanto reanima como deprime, porque nem toda a gente sabe lidar com o comprimido, na devida proporção da sua importância, relativamente à dimensão da doença. Não se pode exagerar na dose, nem se pode esquecer de fazer a tomada certa.
Depois de toda esta lengalenga lembrei-me de Sócrates. Para muita gente um autêntico comprimido, que não sai da cabeça do doente, nem de dia nem de noite, como se de um medicamento indispensável se tratasse, sempre presente à mesa, onde faz crescer o apetite, ou à beira da cama, onde é remédio santo para tirar o sono ao mais dorminhoco.
Muito mais abrangente que o comprimido normal, Sócrates monopoliza as conversas de muitos daqueles que ainda não precisam de falar de médicos, de consultas e de doenças, como se Sócrates se tornasse ao mesmo tempo, na doença que faz sofrer, e no comprimido que tira a dor, mas que aumenta a tensão, em lugar de a fazer baixar.
Contudo, a maior eficácia do comprimido Sócrates, parece revelar-se no combate ao sono que ele dá a quem não o esquece, nem por um momento que seja. Nestes casos, o doente consegue chegar a ser mais achatado que o comprimido, ao ficar semelhante a um disco riscado da idade da pedra lascada, mas que nada nem ninguém o faz parar. 
O comprimido Sócrates tem, no entanto, uma contra indicação que não pode ser esquecida. Não pode ser tomado por quem queira mesmo dormir, caso contrário, é certo que ainda perderá o pouco sono que eventualmente tenha. Logo, Sócrates tira o sono, mas não dá sono a ninguém.
No entanto, há quem tome o comprimido Sócrates com prazer, mesmo sem estar doente, ou se o estiver, não precisa de receita médica, porque é daqueles doentes que não podem passar sem auto medicação. Tomar comprimidos é como comer tremoços.
Também há quem diga que todos os comprimidos são uma droga. Mesmo aqueles que não podem deixar de se tomar.
 

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