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afonsonunes

afonsonunes

16 Nov, 2009

Moscas e abutres

 

Dizem que tudo na vida tem um sentido político. Se calhar é por isso que a política se tornou numa coisa tão complicada, logo, tão difícil de entender por quem não a considera mais que um modo de vida para uns tantos que, normalmente, devem trabalhar para o desenvolvimento do país.
Mas, também um modo de vida para uns tantos que se esfalfam para que o país os sustente sem fazer mais que tentar estragar o que os outros tentam fazer. Modo de vida não é, certamente, para todos quantos assistem atónitos ao estragar das suas vidas, por causa daqueles que não fazem, nem deixam fazer.
Se tudo na vida é política, então, também as moscas e os abutres que tanto nos incomodam a toda a hora e, por isso mesmo, fazem parte do nosso calvário, são agentes políticos no contexto do país em que estamos inseridos.
Sem dúvida que no ar, por cima de nós e à nossa volta, vemos e sentimos muitas moscas chatas e persistentes que não nos largam para onde quer que nos voltemos. Enxotamos com as mãos a servir de abano, elas levantam voo mas, logo de seguida, lá voltam elas a obrigar-nos a repetir tudo de novo.
O pior acontece depois, quando as moscas já são tantas que atraem a atenção dos abutres que andam lá mais alto e começam a aproximar-se das nossas cabeças, pensando que ali há banquete pronto a servir, dentro de pouco tempo. Esta dupla, moscas e abutres, funciona na perfeição, em termos políticos.
As moscas sabem que os abutres não as comem, mas preparam-lhes o caminho para que possam pousar, repousar e comer, sem que sejam enxotadas pelas mãos das vítimas, depois do trabalho das garras poderosas dos abutres, cujos bicos se assemelham a muitas bocas bem conhecidas da nossa praça.
Manda a ética política que o povo escolha quem prefere, mas as moscas e os abutres não ligam a essas coisas de escolhas e éticas, preferindo a ferroada e a bicada para tentar impor a ditadura das suas opções macabras, na qualidade de rejeitados pela voz do povo.
Aqueles que o povo não escolhe, os abutres insaciáveis, mais as moscas que lhes servem de apoio, arranjam maneira de manter no ar umas bocas constantes, uma espécie de bochechos de fedor permanente, tentando criar a oportunidade final de abrir o bico e rasgar quem desejam ardentemente ver debaixo das garras afiadas de um abutre qualquer.
Tudo na vida é política, considerando que há política decente e política indecente. Quando ela não tem mais que o aspecto de bocas vocacionadas para a falta de higiene oral, não se pode estranhar que obtenha umas respostas a condizer. Política também é fazer perguntas e dar respostas. Política não pode ser ouvir e ficar calado, como alguns democratas querem que seja.
Ou, como esses democratas por vezes também querem, que se lhes diga apenas aquilo que eles querem ouvir. Política também pode ser responder torto, a perguntas ou espirros tortos e enviesados.
Política também é a queixinha do menino que diz para a mamã, que a menina que tem na frente, está a gozar com ele. E a mamã responde naturalmente – goza também com ela, filho. Ao que parece, este menino chama-se José, e a menina dá pelo nome de Manuela. Só que hoje, já são bem crescidos, e andam associados à ideia de que há moscas e abutres, no meio destas ideias a que chamam política.