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afonsonunes

afonsonunes

19 Nov, 2009

Escutem-me

 

Segundo uma douta sentença proferida recentemente, nenhum cidadão deve ser beneficiado ou prejudicado, em função do cargo que exerce, isto dito relativamente às diligências que alguém de direito entenda fazer no campo da justiça.
Em primeiro lugar gostava de saber, muito concretamente, o que se entende por alguém de direito. Parece que nem os maiorais do direito se entendem muito bem sobre esta matéria. E se passarmos à prática muito recente, veremos facilmente que as escutas de Belém, passaram em claro, sem investigação, sem esclarecimento, sem transparência. Pareceu-me até que todas as personalidades muito céleres na defesa da transparência, tiveram pressa em ver o assunto abafado.
Se bem entendi, os cargos a que alguém se referiu, é mesmo qualquer cargo, do mais baixo ao mais alto, já que não foi referida qualquer excepção. Já não entendi, que os responsáveis de todos os partidos se calaram muito acomodadinhos em relação às escutas de Belém, enquanto não se calam com as escutas ao primeiro-ministro, impedindo a justiça de fazer o seu papel com a serenidade indispensável ao seu normal desenvolvimento, tanto com ruídos próprios, como com ruídos alheios. 
Face a estas coisas, esquisitas para mim, não para alguns amigos da transparência, sugiro que me escutem durante meses ou anos consecutivos, para darem uma folgazita ao primeiro-ministro, que já não deve poder soltar um desabafo sobre os amigos que tem, mesmo enquanto está sentado no quarto de banho da sua residência.
Penso mesmo que não deve comer uma boa feijoada de chocos, senão fica sujeito aos ruídos intestinais subsequentes, os quais não devem ficar muito bem nas transcrições das escutas, podendo até, com a habitual boa vontade, ser interpretados como um insulto grave ao escutador de serviço, que pode pensar que esse ruído lhe é deliberadamente dirigido. Crime de ofensa à justiça, com direito a certidão de mau comportamento, em quarto privado, talvez até privativo.
Mas, a principal ofensa será mesmo para os chocos, que nunca perdoarão ao primeiro-ministro o facto de os ter misturado com a feijoada, essa sim, responsável pelos ruídos e fedores susceptíveis de queixa-crime grave, por envolver muitos chocos, assumindo assim, o carácter de ofensa nacional, incorrendo na pena de prisão de ventre, ditada pelo punho de um juiz de circo.
 Portanto, penso que é de toda a justiça que me escutem exaustivamente, mesmo sentado na sanita, porque eu não gosto de feijoada e muito menos dos chocos que gostam de espalhar a sua tinta. Aliás, também não gosto de muitos chocos sem tinta. Depois, também preencho o requisito do cargo, para não dizerem que só escutam aquele e mais nenhum. É claro que não tenho o cargo de presidente de nada, senão isentavam-me logo das escutas.
A grande vantagem de me escutarem em substituição do primeiro-ministro, diz respeito ao facto de o meu telefone estar quase sempre de bico calado, o que não acontece com o dele que, durante todo dia e toda a noite, não deve parar de se expor à conversa. É fácil de imaginar o trabalhão que dá escutar aquilo tudo, durante meses a fio, além da despesa em material de gravação que depois vai para o lixo.  
Além disso, no cargo que desempenho, tenho um horário certo de segunda a sexta, fácil de controlar, após o qual o escutador podia ir dormir a sesta descansadinho. Já o primeiro-ministro não tem horário, está sempre de serviço, mesmo enquanto faz as corridas da ordem. E é certo e sabido que não leva o telemóvel enquanto corre, mas as escutas não são interrompidas por esse pormenor de somenos importância.
Ninguém lhe perdoaria que impedisse as escutas, calando-se, esteja lá onde estiver. Seria mesmo um crime de uso e abuso do silêncio, violador do direito ao falatório nacional, punível com pena de prisão da língua para sempre, apenas ouvindo atentamente, tudo o que lhe queiram dizer. Mas, então, as escutas acabariam de vez.