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afonsonunes

afonsonunes

02 Set, 2008

O povo

 

 
Por mais que queiramos ser optimistas, mesmo querendo fazer a vontade a uns tantos senhores que nos querem fazer crer que temos muitos motivos para o ser, a verdade é que a realidade nos mostra uma face bem mais carregada que aquela que nos apregoam.
Não ganhamos nada com o pessimismo, mas também não resolvemos os problemas que mais nos afligem com o optimismo.
Por mais estranho que pareça, as classes mais desafogadas economicamente, são as que se mostram mais incrédulas quanto aos dias que decorrem, como se vissem fugir-lhes do seu alcance um estatuto de vida desafogada, mesmo que isso não esteja em causa.
Parecem recear qualquer coisa que nem elas verdadeiramente sabem o que é. Ou talvez pressintam qualquer coisa que não lhes sai do pensamento. Ao contrário, os mais desfavorecidos, não receiam perder nada, convencidos como estão de que sempre tiveram tão pouco, que já não podem perder muito, embora se apercebam de que muito está a mudar neste mundo de contradições.
Há uns bons anos atrás tudo parecia estar mais estabilizado na sociedade. Todos sabiam o que eram e o que tinham, bem como as perspectivas que o futuro lhes reservava.
Hoje, cada um sabe o que tem, mas já não sabe o que é, e muito menos o que vai ser daqui a algum tempo. Porque é tudo muito impreciso, por melhores previsões que se façam. Dantes, o povo, era quem mais se queixava da vida, quem trazia o semblante mais cinzento, embora não se mostrasse muito disponível para se manifestar frequentemente. Hoje, há uma parte da classe média, que forçosamente se reclama como sendo o povo mas que, ao contrário dele, aufere bons vencimentos ou rendimentos e, sofregamente, reclama sempre mais, sem olhar para esse povo anónimo, que a toda a hora quer mobilizar para que se junte à sua causa, aderindo a greves e manifestações, que não teriam qualquer expressão sem aqueles que ali vão fazer o frete àqueles que nunca se preocuparam com eles.
Como tantas outras coisas, também o povo já não é o que era.
O povo, então bastante unido, ganhou expressão e vida na Revolução dos Cravos, saltando espontaneamente para as ruas, para dar cobertura aos militares, manifestando, assim, que não queria mais ser excluído de uma sociedade onde não conseguira entrar, porque todos se metiam à sua frente.
Porém, cedo concluiu que mais uma vez, todos se foram antecipando, até que verificou que pouco sobrou para ele. Apesar do tão apregoado slogan que garantia que o povo é quem mais ordena.
Na realidade, logo se verificou que o povo era outro, com excitação aparentemente igual, mas com motivações em completa divergência.
Não era quem tinha as armas, nem era a gente simples que enchia as ruas e andava a pé, enchendo também as estações dos transportes públicos, os mercados e as feiras.
O povo passou a ser quem tinha ordenados certos, em grandes empresas ou no sector público, povo esse que passou a gritar muitas palavras de ordem em manifestações ruidosas, a que chamaram simplesmente manifs, sempre com argumentos revolucionários que serviam de chamariz ao povo real, para se juntarem a eles. Foi aí que nasceu a desconfiança, embora lentamente, de que já tinham dado para esse peditório.
Tudo isso já lá vai e ainda bem que tudo isso tenha acontecido, para que se saísse do atraso miserável em que o país se encontrava. Não vale a pena chorar sobre o leite derramado, quanto a tudo aquilo que tantos especialistas já dissecaram.
Importa lembrar, sim, as muitas oportunidades já passadas para que se recupere o tempo perdido e os muitos recuos que alguns pretensos salvadores têm tido o desplante de nos impingir, com grandes discursos, maiores que os rombos que causaram aos cofres do país, com reflexo nos bolsos dos pobres integrantes da verdadeira expressão do povo que sempre viveu mal.
É tempo de que todos os que têm contribuído para este fatalismo, nos deixem finalmente em paz, mesmo que pensem ser os grandes defensores dos trabalhadores, ou os paladinos e arautos da protecção dos mais desfavorecidos.
É caso para perguntar a uns e a outros, quanto ganham por mês e de onde vêm os proventos que com tanto empenho recebem.
Quando chega a hora de reclamar aumentos, só os ouvimos dizer que as suas preocupações vão para os mais desfavorecidos, mas não lhes sai do pensamento a bendita classe média, de onde não podem excluir-se.
Infelizmente, não há nada nem ninguém que consiga excluí-los, nem que andem por ali de bengala e a arrastar os pés, gaguejando em reuniões, em fóruns e em entrevistas repetitivas, onde a conversa é sempre a mesma.
Em nome do povo, a classe média é quem mais ordena.
O povo, esse, é quem menos ordena e quem, indiscutivelmente, menos ordenha. Das tetas do estado, como é óbvio.