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afonsonunes

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01 Dez, 2009

Dia de nevoeiro

 

Este primeiro de Dezembro foi mais que um simples dia de nevoeiro do ano sem graça de dois mil e nove, pois teve o condão de levar muita gente importante da Europa a manifestar a sua alegria e a sua felicidade por se encontrar em Portugal, mais concretamente em Lisboa, à beira do Tejo, com a Torre de Belém no horizonte.
Mas isso foi a gente importante, aquela gente que vai estar protegida do nevoeiro geral, a que não poderá fugir o cidadão comum, aquele que não tem bons faróis de nevoeiro, nem bons impermeáveis que o protejam da humidade e daquela chuva a que vulgarmente se chama de molha parvos.
Estamos em Portugal e na Europa, mas estamos melhor na Europa, onde alguns portugueses são reconhecidos pelo seu valor e pelo seu trabalho, enquanto por cá, só ouvimos falar de corruptos, incompetentes e ignorantes. É verdade que há de tudo isso, e com fartura, mas gostava que houvesse uma maneira de os identificar a todos, de forma bem clara.
Por exemplo, através de uma braçadeira no antebraço esquerdo ou direito, à vontade do freguês, com uma cor para cada uma dessas espécies de cidadãos. Que até poderia ser branca para os ignorantes, preta para os corruptos e roxa para os incompetentes. Estas cores justificam-se com o facto de não deverem ser identificadas com forças partidárias.
É evidente que a atribuição dessa identificação não podia ser feita segundo os critérios actuais, senão lá continuavam por identificar os piores entre todos eles. Estamos na Europa, onde deve haver seriedade suficiente para mostrar aos portugueses que temos de mudar muita coisa para nos sentirmos bem entre os europeus, embora eles não nos vejam assim com tão maus olhos.
Não sei como ficaria o país assim colorido, principalmente, como ficariam os braços de tantos dos identificados, que têm tido muito mais ganas de rotular os outros, sem pensarem nos rótulos que eles próprios mereciam. Estamos na Europa, onde se trabalha mais do que se fala, principalmente, daquilo que se não sabe e muito menos daquilo que compete a outros dizer.
Sei que esta Europa não serve os interesses de muita gente, pelo menos não tem servido, mas a verdade é que, sem ela, não vejo onde é que tantos oportunistas teriam ido buscar os galões que hoje ostentam e lhes dão direito, embora torto, de falarem alto, como se fossem os mais sérios de Portugal inteiro.
Também há muitos que não têm galões nem grandes ou pequenas fortunas, mas têm o privilégio de viver à custa da bananeira, cuspindo para o ar, a ver se atingem quem vai fazendo muito mais que eles. Julgo que fazer alguma coisa, mesmo que nem sempre tudo bem, é bem melhor que não fazer mesmo nada. Estamos na Europa mas, para estorvar, não fazemos lá falta nenhuma.
Como eu gostava que o país e a Europa fossem uma boa capa com capuz, capaz de nos livrar deste nevoeiro que nos tira tudo da vista, como se a sua densidade fosse um fantasma branco que nos impedisse de reconhecer o caminho que devemos trilhar, sem olhar aos sinais enganadores de quem ainda vê menos que nós.
Voltando às braçadeiras coloridas, seria bom que elas fossem feitas de material reflector, por causa da confusão do nevoeiro persistente que nos aflige. E, já agora, porque somos todos muito desconfiados da capacidade e da seriedade dos nossos concidadãos, também seria bom que as nossas braçadeiras fossem atribuídas por selecção feita por cidadãos albaneses ou malteses, para termos a certeza que não estávamos a ser burlados.
Já que não temos gente capaz, no dizer de alguns, e reconhecendo que quem temos não se entende, então que venha a Europa, como já acontece em tanta coisa, acabar de vez com este nevoeiro cerrado.