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afonsonunes

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02 Dez, 2009

A gaiola dos loucos

 

O país está transformado numa gaiola onde as aves raras se acotovelam à procura de um cantinho onde cada uma delas possa fazer o ninho e, como isso é muito difícil, vão-se socorrendo da solução mais cómoda, muitas vezes a única possível, que é fazer o ninho atrás da orelha dos outros.
Talvez haja qualquer coisa errada nesta singular gaiola, já que estas aves raras deviam estar numa gaiola com grades e guarda de serviço, por causa das cotoveladas que aleijam mesmo, sem terem a correspondente penalização. Portanto, ver tudo aos quadradinhos, podia ser uma visão estratégica para o problema.
Mas, a gaiola é de loucos e não de aves raras. Daí que os quadradinhos até podiam servir para turvar a vista a alguns guardas que também não passam de aves raras. O grande problema é que, sem que se dê claramente por isso, os loucos são uma mutação genética das aves raras, mais pronunciadamente, quando as portas das gaiolas se abrem para abastecimento.
Nessa altura, há o perigo de saírem as aves raras ou os loucos, sabe-se lá, e entrarem os guardas, num momento de exaltação das virtudes da igualdade entre todos os seres adstritos à vida das vistas aos quadradinhos.
Gaiola é sempre gaiola que, em qualquer circunstância, não deve servir para albergar os pobres diabos que fazem tudo inconscientemente, mesmo umas asneirolas, que nunca deviam ser consideradas de gravidades superiores às virtudes dos loucos, mesmo que se portem como aves raras, que sempre se dedicaram a fazer o ninho atrás das orelhas moucas dos guardas das gaiolas.    
Neste país, que é uma gaiola, onde as aves raras encontram tudo o que precisam para uma vidinha cheia de prazeres ao sol, há-de vir um dia em que os loucos, que hoje ainda são raros como as aves, se tornem os grandes ocupantes da gaiola, depois de terem aberto as portas e de a transformarem num paraíso sem grades nas janelas.
Diz quem sabe que a grande incógnita da questão é saber como é que isso se faz sem meter aves raras nem loucos no negócio, o que é muito difícil, devido à dificuldade de os fazer compreender que eles são, realmente, aquilo que são mesmo, e que aqueles que sabem da coisa, não são aquilo que os loucos pensam.
Se não houvesse este imbróglio, a gaiola dos loucos até podia ser o parque dos príncipes, onde toda a gente podia dar prendas à vontade, assim como no preço certo, onde nada tem preço, apesar de não faltarem ali as jóias mais preciosas da gaiola que põe muitos olhos em bico. E não me consta que os loucos e as aves raras percam as estribeiras, tentando violar as regras da gaiola.
Mal empregado país que não sabe os loucos que tem, nem faz ideia da felicidade que uma gaiola deste tamanho pode proporcionar a tantas aves raras.