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afonsonunes

afonsonunes

07 Dez, 2009

Concordo

 

Nem sempre estamos na mesma onda, mas desta vez não tenho dúvidas em afirmar que estou completamente de acordo com um dos faladores de serviço habituais do CDS, quando disse que “a justiça em Portugal precisa de uma venda na boca”. É claro que a minha concordância só é válida se a venda a que ele se refere for uma coisa para vendar a boca.
Por princípio, nunca gostaria de ver alguém com a boca vendada mas, neste caso, é a justiça que está em causa e, em boa verdade, a justiça não tem que falar para cumprir a sua difícil missão.
Se ela falar antes, não é a justiça que fala. É alguém que, simplesmente, devia estar calado para que a justiça surja no momento devido. Se falar depois de ter sido feita justiça, é extemporânea qualquer explicação, pois todas as dúvidas devem ficar completamente esclarecidas no momento da leitura da sentença.
Voltando à frase da venda na boca, já não estou de acordo, se a venda se referir ao verbo vender, pois existem alguns indícios de que algo do que sai da boca se compra e vende com frequência, como se deduz de tanto material jurídico, ou pretensamente jurídico, que aparece à venda, depois de transformado em outras sedes.
Acabo de me lembrar de outras vendas, estas de outros tempos, tão distantes que talvez já poucos se lembrem delas. Essas vendas foram as versões originais das tascas e das tabernas de hoje, que estão quase a atingir o nível de pequenos bares ou cafés de aldeias ou de bairros.
Parece à primeira vista que nada terão a ver com a venda da boca da justiça. Têm sim senhor. Naquelas vendas, de ontem ou de hoje, havia quem se encharcasse até toldar a vista. Depois, havia muita maneira de fazer justiça às cegas, nesses bairros ou nessas aldeias, que não eram muito diferentes do país de hoje, onde se mata por uns cêntimos, ou pelo preço de mais um bagacinho.
Portanto, esta coisa das vendas tem muito que se lhe diga. E, por causa disso, a ter que se vendar a boca da justiça, também convém vendar muitas bocas de incêndio, que não há bombeiros que consigam meter-lhes a mangueira no sítio certo. E a culpa não é dos bombeiros certamente, que nem água lhes dão para esse efeito.
No ponto em que as coisas estão, parece-me que nem vendendo a alma ao diabo se conseguirá desvendar estes mistérios das vendas da justiça. Talvez fosse aconselhável requisitar uma brigada especial à CEE para acabar com as muitas vendas que andam nela, mas também, e principalmente, fora dela, pois bastava que não houvesse receptadores para essas vendas obrigando, desse modo, a que todo o negócio fosse por água abaixo.
Convinha que essa brigada especial viesse, especialmente, bem treinada para actuar em meios subterrâneos e submarinos, pois os nossos melhores especialistas em matéria de vendas, não costumam actuar à superfície, onde poderiam ser incomodados com pedidos de autógrafos, se esquecessem as vendas nos olhos para não serem reconhecidos.
Renovo pois a minha concordância com o declarante do CDS que, pelos vistos, não tem nenhuma espécie de venda no seu espírito, de entre aquelas que me passaram pela cabeça enquanto desvendava o que vai pela minha cabeça. Tenho a convicção de que não vai por lá grande coisa.
Depois, há aqui um dilema terrível. É o problema das vendas no pensamento. Não esquecer que a boca também é seu porta-voz. Se a vendam, ou se a vendem, pobre pensamento.