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afonsonunes

afonsonunes

09 Dez, 2009

O bobo e a boba

 

Há sempre alguém que nos faz rir e ainda bem logo, é inevitável que ainda haja uns bobos de serviço, senão lá se vão os nossos momentos de descontracção, com o consequente agravamento dos nossos problemas de stress e nervosismo miudinho, com algumas tendências a tornar-se perigosamente grosso.
De vez em quando oiço por aí falar de palhaços e palhaças mas confesso que não me soa muito bem. Em primeiro lugar, porque há profissionais honestos que, com muito humor, também nos cuidam da saudinha através das suas graças. Em segundo lugar, porque há uns engraçadinhos e umas engraçadinhas que chamam palhaço ou palhaça a quem lhes faz corar o nariz.
Ainda há quem se divirta à brava por alguém chamar palhaço a outrem. Não importa que quem chama pudesse até ser mais palhaço que o chamado, pois isso só poderia ser comprovado com um teste à graça de cada um deles. Isto no caso de se servirem do étimo palha com aço, no seu sentido gramatical mais puro.
Mas, talvez por distracção ou ignorância, usam o termo palhaço como uma ofensa ou um insulto para atingir alguém de quem não gostam, ou de quem lhes convém mostrar que não gostam. Ou ainda porque sabem que alguém vai pegar nessa acção de graças, para lhe dar a tão desejada notoriedade.
O palhaço e a palhaça saltam então para a ribalta sem dizerem graça nenhuma, o que me parece um logro de palhaçada feito, por parte de alguém que não tem, nem engenho nem arte, para encontrar melhor graça ou desgraça, para ocupar o espaço que constitui o seu ganha-pão, que devia ser limpo como o trigo.
É evidente que a palhaçada, só resulta se os seus intérpretes reunirem um conjunto de circunstâncias e requisitos especiais. Vamos supor que era eu a chamar palhaço ou palhaça a esses que surgem na ribalta. Quem é que tinha pachorra para ligar peva a essa parvoíce? É que ninguém se lembraria sequer de dizer que o palhaço era eu.
E ainda bem, porque não tenho mesmo pachorra para a importância que se costuma dar a coisas, cuja importância se resume ao segundo ou ao terceiro sentido que se queira dar à questão, pretendendo introduzir no espírito alheio uma ideia que vai direitinha a quem, ou àquilo que está ali mesmo ao lado.
E então, nesta palhaçada de certa política, onde se aproveita toda a mosca, de toda a coisa onde ela poisa, para alastrar o cheiro dessa coisa, sabendo de antemão que há sempre quem esteja disponível para uma pitadinha, sabendo ou não a origem do produto e o destino que lhe está reservado.
É por isso que prefiro o termo bobo e boba, porque não tem essa tal coisa tão próxima, logo, muito menos mal cheirosa. Também porque os bobos e as bobas, eram muito mais puros no sentido das suas graças, ou não se destinassem elas aos reis e rainhas acompanhados de toda a corte.
Depois, os bobos e as bobas não podiam ir à coisa, nem tão pouco mandar alguém à coisa, senão estavam sujeitos a poisar a cabecinha no cepo e isso era uma chatice de que não havia recurso. Claro que estes palhaços de meia tigela de hoje que, ao fim e ao cabo, só são palhaços no tratamento que usam entre si, não tinham categoria para serem verdadeiros palhaços.
E esses, os verdadeiros, não têm quem os ponha na ribalta, nem sequer na época alta deles, que é o circo, nesta época de Natal.