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afonsonunes

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Hoje fiquei a saber que o país tem telejornais, embora desconheça ainda quantos. O país também tem muitos jornais mas com tele suponho que são poucos. E desses, desconheço se todos merecem ser metidos no mesmo saco ou se algum deles tem direito a saco especial, devido ao volume do seu som.
Vem esta treta a propósito do nosso presidente ter acabado hoje uma visita ao país que não anda nos telejornais. Pergunto a mim próprio por onde andará esse país que, tudo indica, o país desconhece. Ou muito me engano, ou isso quer dizer que o país se desconhece a si próprio, o que nem sempre significará ignorância.
Há a possibilidade do nosso presidente admitir que temos vários países dentro do país total. A visita que hoje acabou de fazer foi apenas a um deles. Por sinal, segundo me pareceu pelas referências que ouvi, ele andou pelo bom país. Acho muito bem que esse país receba o privilégio da visita presidencial.
Se não for o presidente a reconhecer que não há apenas um país mau, quem é que o fará? Aposto que em cada cinco portugueses há pelo menos quatro que estão de acordo em que nada presta. Provavelmente, esses ainda não perceberam que, entre esse nada, estarão eles próprios, o que me parece uma injustiça de todo o tamanho. Como sou um bocadinho optimista, acho que tudo tem sempre um mínimo de utilidade.
Essa dos cinco portugueses e dos quatro em cada cinco, não se baseia em qualquer sondagem, senão teria de revelar, por lei, como foram obtidos esses dados ou seja, a respectiva ficha técnica. Limitei-me apenas e eliminar a opinião baixa, recorrendo somente à opinião alta, isto é, à opinião que anda nos telejornais. Que não sei se terá a ver com o país que não anda nos telejornais.
Sempre gostava de saber qual é o país dos telejornais, sem ter que os ver, pois isso seria quebrar uma jura que fiz a mim próprio, há muito tempo. Já me constou que eles são, os telejornais, claro, um tanto estupidificantes. Que raio de termo este, que me parece esquisito de mais para ser verdadeiro. Mais a mais, telejornais apresentados por gente tão simpática.
Já não me admiro de nada do que oiço, mesmo fora dos telejornais, por isso, só vou acreditando numa coisa aqui, noutra ali, vejam só, dependendo da minha disposição para ouvir. Obviamente que esta atitude da minha parte não tem pés nem cabeça, até parecendo que já fui estupidificado muitas vezes.
Também tenho a impressão de que há uma certa tendência para cada um ouvir só o que lhe interessa, assim como eu, confesso. Mas esta do país dos telejornais deixa-me mesmo à beira de um desejo enorme de deitar um foguete. Porque sentiria um prazer dos diabos por ouvir um pum valente, como salva à minha justa jura de não os querer ouvir.
É por tudo isso que me parece que este recado do nosso presidente, não é apenas mais um recado, entre os muitos que ele já enviou, muitas vezes, eu nem sequer soube a quem. Talvez esteja a ser injusto, porque desta vez não deve tratar-se de um recado, mas de um desabafo de presidente, que acha que deve dizer as coisas assim mesmo. À sua maneira.
Eu sei que um dia destes ele acaba por dizer quais são os outros países que não andam nos telejornais, pois ele sabe melhor que ninguém, que os portugueses, todos os portugueses, vão gostar de saber qual é o país em que cada um deles vive.
E, já agora, também tenho a maior curiosidade em saber de quantos países ele é presidente.