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afonsonunes

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13 Dez, 2009

Batedores

 

Sinceramente, estou perplexo como é que ainda não me tinha lembrado de coisas tão importantes. De coisas e não só, porque entrando um pouco no âmago da questão, chego à conclusão que também há batedores e batedoras de carne e osso como eu, assim como batedores de outras espécies indiferenciadas.
Por princípio, tudo o que bate é batedor, não importando no que bate, se bate muito ou pouco, ou até se bate com meiguice ou com violência.
Num país de caçadores não podiam faltar os batedores que levantam a caça, para que ela vá direitinha para onde a esperam. E quem a espera, é exactamente o caçador que adopta essa modalidade – a caça à espera – de arma em punho para disparar ao primeiro sinal de que a vítima está na mira do seu olhar.
Aí está uma actividade nobre, muito bem desempenhada por especialistas que sabem de tudo o que se relaciona com caça, desde os simples melros até às espécies denominadas por caça grossa, como o esperto javali.
Embora nunca ponham o dedo no gatilho, os batedores são elementos essenciais das grandes caçadas pois, sem eles, os caçadores de pontaria mais afinada, regressariam muitas vezes a casa com o trágico bode no pensamento.
Somos um país de batedores, que mais não fosse porque toda a gente gosta de bater em alguém, ou em qualquer coisa. Já lá vai o tempo em que não se batia numa senhora nem com uma flor. Hoje, são as próprias flores que servem para bater forte e feio quando lhes dá na real gana, pois até os bate papos, com eles e com elas, já dão para bater a doer.
Para lá da política dos bastidores, também está muito activa a politica dos batedores, guarda avançada que se ocupa na exploração do terreno, operação preparatória de batalhas que não podem ser espontâneas, sob pena de serem vistas como manobras de alguma indignidade, que resultam sempre em derrotas de guerreiros sem estratégia.
Ainda que não pareça, há um outro instrumento político, que são os batedores de manteiga, destinados a suavizar as batidas mais incómodas, para não provocar rombos causadores de danos irreparáveis nos aparelhos, nomeadamente, no digestivo, que será o mais sensível aos primeiros sinais de ter de se engolir um sapo inteiro e vivinho da costa.
Já se sabe que a política serve para tudo, pois também ela vive de tudo, dizem, de tudo o que é bom e de tudo o que é mau. Agora, verdadeiros e dedicados batedores, são todos aqueles que abrem aos políticos, o caminho do bom e do mau bater nos adversários, ou lhes barram os atalhos por onde possam ser atacados.
Umbilicalmente ligados aos batedores da política, andam muitos dos batedores da informação, tão ligados que muitas vezes se confundem, melhor, muitas vezes são carne da mesma carne e osso do mesmo osso. Batem todos o mesmo descampado, percorrendo as veredas de onde julgam que se levanta caça, ainda que imaginária, encaminhando-a por telepatia para onde outros, mesmo atiradores furtivos, disparem de olhos fechados.
Depois, como bons batedores que são, batem, batem e batem, de dentes cerrados, como se estivessem a bater num saco de treino de boxe pendurado no tecto. O problema é que o saco não se queixa, não se ri, nem dá sinal de responder ao batuque. Tarefa ingrata, a destes desalmados batedores.