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afonsonunes

afonsonunes

14 Dez, 2009

Santos da casa

 

Enquanto os filhos crescem os pais envelhecem. Esta é uma realidade que me faz pensar que quem se convence que tem de dar conselhos aos filhos até se tornar velhinho, e que eles têm a obrigação de segui-los, com o pretexto de que pai é pai, ou mãe é mãe, faz-me lembrar a independência das aves ou dos gatos, após a saída dos ninhos.
Lá diz o ditado - casamento, apartamento - que reflecte bem a independência que a idade madura traz. Tudo tem o seu tempo na vida das pessoas e, por muito que custe, a idade avançada vai trazendo desgastes, enquanto a idade jovem vai acumulando conhecimentos e experiência. Daí que o normal seja que os jovens vão substituindo gradualmente os mais idosos. Sem pressas nem empurrões, como por vezes acontece.
Vem isto a propósito da atitude de certas pessoas que se julgam acima de toda a gente, alegando experiências vividas, do seu ponto de vista, inigualáveis, do ponto de vista de estranhos, nem sempre muito frutíferas, ou mesmo desastrosas. Mas assumem a todo o momento, aquele ar de patriarcas irrepreensíveis.
O mesmo acontece quando alguém desse tipo ascende a uma posição, acima do cidadão vulgar, criando-lhe uma espécie de inchaço no peito que o leva a considerar-se mais importante que ninguém. Por vezes parece defeito, outras vezes, é bem evidente que se trata apenas de feitio.
Então, é vê-los e ouvi-los enchendo a própria boca, com tudo aquilo que enche e arrepia os ouvidos de quem tem mesmo que os ouvir. E o pior é que se convencem mesmo de que quem os ouve, nem pensa duas vezes antes de seguir esses conselhos de sábio, que já esqueceu todas as inutilidades que proferiu ao longo da sua carreira ou da sua vida.
Essa pobre missão de dar conselhos, será pior, se a tendência for para impor conselhos, seja a que título for, porque só quem esteja disponível para os aceitar, poderá acolhê-los com sucesso. E na base desse sucesso tem de estar sempre uma boa dose de modéstia de quem dá e de quem recebe.
Ora o que se vai vendo por aí, em novos e idosos, são pessoas de uma intolerância que faz pena, que pretendem altivamente impor as suas teses de aconselhamento, dentro de uma hipotética sabedoria que muitas vezes apenas reflecte a mais profunda pretensão de impor interesses que nem sabem disfarçar.
Fazem-me lembrar aqueles santos da casa que, dentro dela, não têm sequer voz activa, mas fora dela, na casa dos outros, julgam-se capazes de todos os milagres, depois de vomitados os seus sermões de santos de pau carunchoso.
Toda a gente sabe que santos da casa não fazem milagres, mas a verdade é que continua a haver muita gente que é capaz de se estender a seus pés, convicta de que conseguirá um olhar piedoso, que não dará pão para a boca, mas dá ilusões para a vida inteira.
E o grande problema é que ainda há muitas pessoas que rezam no lugar errado, que adoram santos que apenas o são na imaginação de quem não pensa, ou não tenta pensar, na maneira de obter um pouco de independência libertadora das pressões desta sociedade interesseira, onde as corporações afundam a possibilidade de emancipação dos verdadeiros pobres.
E o mais arrepiante é ver como esses verdadeiros pobres se deixam embalar em braços que nada libertam em seu proveito, porque não há riqueza que consiga satisfazer os seus próprios apetites insaciáveis.