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afonsonunes

afonsonunes

15 Dez, 2009

Contas de cabeça

 

 Ainda há muita gente que faz contas de cabeça, tal como ainda há quem conte pelos dedos para saber quantos são dois mais três. E muita dessa gente tem negócios mais ou menos volumosos e nunca se engana, ao que sei, se estiverem em causa os seus interesses. Quando se dá o contrário, posso garantir que já verifiquei uns pequenos enganos, mas frequentes, resolvidos com um comprometedor pedido de desculpa.
Ainda é frequente em restaurantes com movimento significativo, ao pedirmos a conta recebermos de imediato a informação oral de que são dez, vinte ou trinta, sem uma discriminação, sem um papel, sem uma factura. E não estou a falar, como quase toda a gente deve saber, daqueles restaurantes que têm preço fixo por refeição.
Falo em restaurantes, como podia falar em inúmeros estabelecimentos de qualquer outra espécie, onde o registo na máquina, se existe, é só para inglês ver. Sei que há quem veja nestes procedimentos uma boa razão para aldrabar o estado que, dizem, não merece mais que isso. E acrescentam que é pena que não façam todos assim.
Daí que também eu já me tenha posto a fazer contas de cabeça, quando me dizem que cada português já deve não sei quanto ao estrangeiro. Claro que essas contas, nem a contar pelos dedos, sou capaz de as fazer. Mas, no que toca à minha dívida ao estrangeiro, prefiro ficar no rol dos caloteiros, a pagar as contas que outros fizeram.
Depois, se eles não as pagarem, parece-me bem que as pague quem sempre achou que é estupendo, ou que é bestial, haver quem se recuse a pagar os impostos que recebeu dos clientes para entregar ao estado, seja lá por que motivo for.
Mais, que pague essas dívidas quem está sempre a exigir que determinadas classes ou pessoas sejam dispensadas ou isentadas, apenas porque essa postura lhes dá simpatia. Por mim, não quero ser simpático se tiver de cometer vigarices para o ser. O estado de direito, infelizmente, anda muito por dentro da permissão dessas franjas de vigarice.
Estas são algumas das contas de cabeça que não encontro na tabuada, facto que me obriga a um esforço mental que não me contempla com qualquer compensação, ao contrário de quem nem se dá ao trabalho de fazer contas de cabeça para arrecadar o que não lhe pertence.
É a contabilidade mais simples e cómoda que existe, as chamadas contas de saco, ou contas de merceeiro, que ainda não entraram no mundo da seriedade e da transparência, muito por culpa de quem devia fazer cumprir as leis, quantas vezes por incúria, quantas vezes também devido à pressão de tanta gente que lhe interessa que não se metam os outros na ordem, para que os não metam a eles também.
Cá pelas minhas contas de cabeça, as quais já vi confirmadas por boas máquinas calculadoras, se todos os autores de falcatruas se deixassem disso, se todos os cidadãos se colocassem em pé de igualdade perante o fisco e cumprissem correctamente as suas obrigações, o nosso querido país não teria défice nenhum e nós, cidadãos portugueses, não teríamos às costas, a tal dívida arrepiante de não sei quanto cada um.
Logicamente que ninguém se poderá fiar nas minhas contas de cabeça, principalmente, todos aqueles contribuintes que têm máquinas calculadoras de alto rendimento, as quais têm uma memória extraordinária, que consegue deduzir tanto nos impostos, que ainda vai buscar parcelas aos bolsos dos que, em lugar de deduzir, acrescentam para, no fim, pagarem com língua de palmo.
Malditas contas de cabeça que dão sempre zero no resto, e no restante, nunca mais se acertam, mesmo com a prova dos nove.