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afonsonunes

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No silêncio da noite há barulhos ensurdecedores. Também nos ruídos da noite há silêncios que enervam. Qualquer destas realidades existem e qual delas a mais desconfortável para pessoas habituadas a determinadas condições ambientais que, provavelmente, fazem parte da sua maneira de viver desde os primeiros dias de vida.
Isso significa que podemos viver condicionados por tudo e por todos aqueles que nos rodeiam, porque não podemos fechar os ouvidos, de modo a ignorar completamente os poluidores sonoros que, por sua vez, se queixam a todo o momento que há quem os queira calar.
Ficou célebre a frase do rei de Espanha para Hugo Chavez. Ficou claro que houve quem opinasse em favor dos dois lados. Por mim, direi que ambos tinham as suas razões, até porque está na moda não se tomar posição de um contra outro, desde que os protagonistas sejam mais ou menos importantes.
Ou então, para estar ainda mais na moda, toma-se sempre partido pelo mesmo, sejam quais forem as razões que estejam em causa. E é aqui que o silêncio da noite chega a ser tão provocante como o ruído da noite. Por vezes apetece dizer a alguém, porque não te calas, outras vezes insurgimo-nos porque alguém se cala quando entendemos que não devia.
Quantas vezes quem quer falar, é impedido de o fazer por quem fala de mais, num sinal claro de que a liberdade de expressão anda muito mal distribuída, pois quem mais a reclama para si, é quem mais exige rolha para a boca dos outros. Cada um que pense em quem quiser.
No silêncio da noite ouve-se muito o pio da coruja que dizem ter o mau hábito de se entranhar nas igrejas em busca dos óleos sagrados. Não se sabe por onde entra, mas sabe-se que entra. Depois, à saída, com o papinho cheio pia, cortando o silêncio e o sono de quem estava bem ferrado nos braços de Morfeu.
No silêncio da noite a caravana avança através dos campos onde apenas os grilos e os ralos dão sinal de vida, que não chega para incomodar os sonolentos viajantes. A aproximar-se da aldeia, o ruído aumenta, o sossego quebra-se, os olhos abrem-se e tentam penetrar na escuridão.
Mas, apesar de serem muitos, os cães vão ladrando sem desafinar, seguindo a caravana, ao longo de todo o percurso dentro da aldeia. Nem os donos dos cães se ralam com o alarido dos seus animais. Já estão habituados à passagem das caravanas e ao ritual que as acompanha. Os componentes da caravana, depois de abrirem os olhos, logo voltam a fechá-los, indiferentes a todo aquele alvoroço canino.
Tudo porque os animais têm o privilégio de poderem dormir o dia inteiro, se lhes apetecer, estando completamente disponíveis para tentar incomodar a caravana que passa durante a noite. Nem que haja caravanas a passar todas as noites. Os cães lá estarão para ladrar, que não lhes fará falta o tempo para dormir.
Não se pode sequer tentar calar os cães, porque é para ladrar que os seus donos os criam, os alimentam e lhes passam a mão no pêlo, em sinal de reconhecimento pelo incómodo que, também eles, pensam causar às caravanas que vão passando.  
Mas, há sempre quem veja as coisas por outro prisma e diga apenas que os cães ladram …