Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

26 Dez, 2009

Nada de novo

 

O Papa caiu e um cardeal partiu uma perna. Ainda há quem tenha o descaramento de dizer que não há nada de novo. Se isto não é algo de novo, então só nos restam os velhos cá do bairro, que não se cansam de repetir as suas ancestrais asneiras, para que se não diga que eles não sabem nada, nem são capazes de dizer nada.
Pois, eu sei que não é lá muito decente estar a trazer para aqui, figuras tão respeitáveis e, ainda por cima, em situação tão lamentável. Mas, ao que julgo saber, já está em curso um movimento de solidariedade para com a causadora da tal novidade de incidente.
Até nisso, também é caso para dizer que já há mais qualquer coisa de novo. Portanto, por cá, estamos apenas numa fase preliminar de novidades, pois ainda não conheço nenhum movimento tendente a fazer cair alguém, nem a pensar em partir pernas seja a quem for.
Porém, como não podemos fugir à regra de passarmos pela fama de não ter nada de novo nesta quadra festiva, é minha intenção quebrar essa ideia fixa que não tem a menor justificação. Daí que reitere que, de novo, temos muita gente com a intenção firme e determinada de desejar ardentemente que alguém caia, ainda que se guarde o anonimato, tanto do sinistrado, como dos causadores da queda.
Como é óbvio, o acidentado imaginário, não surge com a mesma identidade para toda essa gente que teria esse prazer mórbido, pois estou convencido que nós nunca faríamos tal coisa ao Papa ou a qualquer um dos seus cardeais. Nós gostamos de novidades, mas somos muito menos ambiciosos no que toca à relevância dos incidentes ou acidentes, mesmo os meramente desejados.
Em boa verdade, mesmo muitos dos que sonham com quedas, com ou sem pernas partidas, não deixam de considerar as perdas que lhes provocaria a satisfação de um desejo tão ardente. É que uma queda é, quase sempre, uma queda em cadeia, ou em série, ou cambalhota colectiva, que pode não ser tão selectiva quanto se deseja.
Há sempre qualquer coisa de novo, quando se juntam aqueles que dizem sempre a mesma coisa. E essa novidade pode ser apenas a vontade de que tudo continue a ser velho como eles. Mesmo que apregoem aos sete ventos que o mundo é feito de mudança, mas sempre de olho à espreita com receio que ela se aproxime demais.   
Como estamos no final de mais um ano, não convinha minimamente que as conversas sem nada de novo, passassem em saldo para o seguinte. Convém despejar o saco da roupa suja quanto antes, para ver se começamos o ano com novas roupagens ou, se não houver cheta para tanto, ao menos que seja velha, mas visivelmente limpa.
E digo visivelmente porque temos todos, cada um à sua maneira, uma noção do tamanho das nódoas que andam por aí em movimento, à boleia de fatinhos novos, muitas vezes parecendo que essas nódoas são feitio quando, se repararmos atentamente, veremos que é mesmo defeito, e defeito de falta de limpeza.
Nada de novo, mas não está tudo como dantes. Mesmo o que parece não é, simplesmente, porque aqueles que dizem que não há nada de novo, sentem que já lhes mexeram nos calcanhares, com a grande novidade de que os sentem cada vez mais frios, aquela sensação que as mulheres sentem atrás.
De novo, aquela certeza que já temos hoje de que até o Papa foi empurrado. Como não é nada de novo, haver por cá muita gente com vontade de empurrar alguém mas, cheio de medo de que lhe aconteça o mesmo que ao cardeal que apenas ia ao lado do empurrado.
Nunca se sabe quem é a maior vítima dos empurrões.