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afonsonunes

afonsonunes

05 Set, 2008

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Toda e qualquer herança é uma prolongada fonte de conflitos que nem sempre acaba bem. Na melhor das hipóteses pode ocasionar apenas uma espécie de jogos florais entre herdeiros, em que cada um declama, consoante o seu temperamento, uma série de operetas, de poemas ou de versículos, destinados a abrilhantar condignamente a sessão solene da recepção da herança. Na hipótese oposta, pode transformar-se num arraial de pancadaria, em que os herdeiros se esquecem dos mais estreitos laços que deviam uni-los.
Mas, o quantitativo e o qualitativo da herança tem muito que se lhe diga, dado que as operações de partir e repartir vão muito para além de baús mais cheios ou mais vazios.
Em política, até há quem chame almofada ao espólio dos governos que vão à vida, por bons ou maus motivos. Essa da almofada faz-me lembrar aquele chumaço que as mulheres metem debaixo das saias para simular uma gravidez. No fundo, simulam ter mais barriga que rebento, o que se assemelha a um governo que deixa para o seguinte, um enorme cofre fechado com uma série de letras perto do vencimento. Tudo mania das grandezas.
Nisto de heranças políticas, todos os governos se queixam da herança recebida, mas ainda não houve nenhum que se recusasse a assumir o poder devido às condições negativas que apregoa. Pelos vistos, almofada foi coisa que nenhum deles conheceu desde a chegada da democracia. No entanto, há quem tenha adquirido boas almofadas individuais depois de ter estado a chupar no dedo antes de ter passado pelo poder.
Depois, já não é a primeira vez que o povo é chamado a apertar o cinto para recuperar o pilim que voou para sítios bem conhecidos de alguns, mas de que não há retorno possível, o que prova que há governos que gastam o que não têm para que o seguinte pague o que não usufruiu.
Numa rápida retrospectiva ao passado, não é difícil identificar partidariamente, quais os governos que mandaram apertar o cinto, para resolver problemas de herança, e quais os governos que distribuíram magnanimamente o que não tinham. O mais curioso é que logo que o fogo se apaga, logo surgem os incendiários a proclamar-se como únicos e exclusivos salvadores da pátria. Não é certamente para mandar apertar cintos que tanto repudiaram.
Os verdadeiros sacrifícios do povo têm resolvido problemas à primeira vista insolúveis, com consequências por vezes injustas para quem pediu esses sacrifícios.
Se o apertar do cinto tem resolvido as crises até aqui, não garante que o sistema vá continuar a resultar, se os protagonistas insistirem na mesma manobra falaciosa. Na próxima crise, ninguém nos garante que o apertar do cinto não vai ser seguido do apertar da corda na garganta.