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afonsonunes

afonsonunes

01 Jan, 2010

Farto de esperar

 

Eu sei que este meu estado de ansiedade não tem a mínima justificação, tanto mais que estamos com escassas horas decorridas neste novo ano de dois mil e dez que, estou certo, nada pode prometer assim de surpreendente, e muito menos de excitante, que dê sentido ao meu estado de espírito.
Mas, o certo é que estou em brasas neste dia um, porque sei que o ano todo vai depender do que for dito daqui a pouco, julgo que no início dos telejornais que, ainda por cima, não costumo ver. Mas que vou ouvir o que me está a provocar este formigueiro todo, de não aguentar a lentidão com que os minutos passam, é incontornável que vou ouvir, sim senhor.
Só podia ser isso. É o nosso Presidente que vai falar e eu já não suporto este martírio de ter de esperar pela hora decisiva. Já não sei se me levante, se me sente, já que nem sequer sei se estou de pé, ou encostado a qualquer coisa que não vejo nem enxergo. Enfim, estou um caso sério de desnorte e não sei como sair dele.
E isto é antes de o ouvir falar. Sim, porque nem sequer imagino o que ele vai dizer mas, a avaliar pelo que tem acontecido nos anos anteriores, vai ser mesmo um caso sério de lucidez e de colocação clara e firme dos pontos nos ii, de tal forma que a partir para aí das oito e meia, senão antes, os portugueses mudam radicalmente os seus costumes e os seus actos, de modo a ficarem adequados às suas palavras sensatas e inequívocas.
Sim, porque eu sei que ele diz e a gente faz, aliás, toda a gente. Daí este meu estado de parvoíce, que nada justifica, porque tudo isto que se diz numa mensagem de Ano Novo, não tem nada de especial, a não ser o facto de ser só de ano a ano. Claro que a minha parvoíce tem períodos muito mais curtos.
O problema é que um ano é muito tempo para duração de uma mensagem e daí que aquelas pessoas que têm a memória mais curta esquecem e, volta não volta, lá volta o país àquela rotina que tem muito a ver com os meus períodos de parvoíce. Não tenho a pretensão de pôr o país ao meu nível mais baixo, pois isso seria mentir descaradamente, coisa que já não se usa há muito tempo.
Com toda esta conversa estou a conseguir aliviar um pouco aquela sensação de que o tempo nunca mais passa. É que, enquanto penso nas parvoíces não olho para o relógio e ele, que não é de meias tintas, nem pensa nos discursos, nem nas mensagens de ninguém, tão pouco no meu estado de espírito e, teimoso como um asno, não pára um segundo sequer.
Por falar em relógio, aí está uma coisa que eu gostava de ser. Calmo, certinho, sem pressas nem atrasos, sem stress, mesmo nos momentos que antecedem as judiciosas palavras que vão marcar as nossas vidas nos tempos mais próximos. Até aquelas coisas mais chatas se nos varrerem completamente da memória.
Mas, isso pouco importa senão, para o ano que vem, já não era preciso outra mensagem.