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afonsonunes

afonsonunes

02 Jan, 2010

Mensagem comprida

 

Se antes da mensagem estava ansioso por ver o que ia sair dali, depois de a enviar fiquei baralhado com as conclusões que pretendi tirar. É que, para tirar conclusões tudo tem de estar muito límpido e transparente perante os meus olhos. É provável que o defeito esteja exactamente nos meus olhos, por vezes, como outros, obtusos e cheios de poeiras.
Já perguntei a mim próprio, afinal, o que é que eu esperava? Sinceramente não esperava nada, mas há sempre aquela luzinha que não se vê, mas que, mesmo escondida, me cria a ilusão de que algo de novo possa acontecer neste nosso mundo que já me desiludiu tantas vezes. Eu sei que a vida é feita de desilusões, mas tantas, meu Deus, já chega de castigo para quem não fez mal a ninguém.
Quando tenho a tentação de dizer que sempre falei verdade aos portugueses e que assim vai continuar a acontecer, pergunto a mim próprio se serei realmente o verdadeiro e único dono da verdade. Será que toda a gente que não pensa como eu, ou que tenha uma visão diferente da minha, é mentiroso? Nem quero comentar as minhas próprias palavras.
Quando tenho a tentação de dizer que a justiça deve ser aplicada sem olhar a quem, com o argumento de que a maior parte dos juízes são pessoas sérias e competentes, penso que me esqueci de referir a menor parte que, por exclusão da outra, a maior, devem ser pouco sérios e pouco competentes. Mas, coitados, esses não me fazem mal nenhum, logo, deixemo-los na sua.   
Ora, certamente que me esqueci de que quem descredibiliza a justiça, não é a tal maior parte mas sim, a menor parte que me passou ao lado. Mas eu sou assim, distraído, mas nunca mal intencionado. Até me lembrei daquele problemazito das escutas a Belém que, talvez porque foi arquivado sem despacho competente, ainda anda às voltas na minha memória. Peço desculpa, mas eu só penso na verdade, verdadinha.
É evidente que a mim não me compete intervir, mesmo que os meus amigos me pressionem escandalosamente, mas não resisto à tentação de meter a colher no caldo do meu vizinho, que até é meu inquilino. Por isso, lá se vai calando porque, embora pague a renda como manda a sapatilha, tem medo que eu lhe ponha uma atómica à porta e, adeus vizinho.
Mas eu vou avisando que não tenham medo. Sim, só pode ser medo de mim próprio, pois ninguém mais tem atómicas senão eu. Apesar disso, o meu vizinho, garanto eu, tem todas as condições de legitimidade para continuar a pagar-me a renda. Desde que não faça na minha casa, aquilo que eu gostava de fazer na dele. Mas não posso, logo, ele também não pode.
Contudo, posso dizer-lhe o que lhe compete fazer, mesmo que seja do seu domínio exclusivo, como por exemplo, pagar a renda sem abrir bico. Mas ele não pode dizer-me aquilo que me compete, pois isso seria uma intromissão intolerável, sujeita à pena máxima da abençoada atómica que só eu tenho.
Entendo que o meu vizinho está a perder credibilidade perante mim, devido ao facto de já não ter confiança nele, embora tenha de dizer que tenho. Não me custa nada, esse pequeno sacrifício. Sem medo, com a renda no bolso a tempo e horas e o bico dele calado, são condições que qualquer senhorio não podia desprezar nos tempos que correm.
Esta é a melhor ética que eu conheço, aliás, também seguida pelos meus companheiros, nos negócios que tinham, ou que ainda têm, alguns dos quais tiveram a pouca sorte de encontrar juízes da tal menor parte. Mesmo assim, há quem diga que estão com sorte, porque ninguém fala neles. Nada mau.  
Já houve quem dissesse que eu era porta-voz dos meus companheiros. Nada mais falso. Quando muito, eles é que são meus porta-vozes, quando faz falta um apoio mais amigo, ou um conforto mais aconchegado, sem dar nas vistas, porque sempre fui muito discreto e amigo dos meus amigos.
Gosto muito de falar na família. Porque é bonito, é simpático e quase todos nós temos família. É por isso que eu ordeno aos portugueses que não pensem demasiado no futuro dos filhos, sobretudo se correrem o risco de deixarem morrer à fome os irmãos do presente.
Agora reparo que a mensagem que devia ser apenas cumprida, já está comprida de mais.