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afonsonunes

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06 Set, 2008

A minha prima

 

 
A minha prima Ambrosina é um espanto de mulher. Nada do que se passa à sua volta lhe passa ao lado, como se tudo o que ouve lhe ferisse os tímpanos, não deixando nunca de reagir ao que ela considera alarvices.
Certamente que toda a gente sabe o que são alarvices, pois é um termo que podemos encontrar nos bons dicionários de português. É claro que a minha prima Ambrosina nunca se lembrou de ir ver tal coisa ao dicionário, mas não tenho dúvidas que ela sabe que o termo alarvices vem de alarve e alarves é o que ela mais encontra no seu caminho. Mas, qual boa defensora das boas tradições do reino, nunca se cala quando lhe sopram nos ouvidos aquilo que ela não gosta de ouvir.
O que ela sente então, é mais que uma comichão ou um prurido. É uma indignação que a leva a reagir de imediato. Depois, essa história de reagir, também não lhe entra bem no ouvido, pois está farta de ouvir isso na rádio e na televisão, a propósito de coisas mesquinhas, transformadas em causas ou factos transcendentes, sempre em nome de um sensacionalismo oriundo de meios pouco sérios e interesseiros. Mas, apesar de não gostar do termo, ela reage, e de que maneira. Ontem estava ela na caixa de uma superfície comercial, quando a cliente que estava a ser atendida na sua frente, se indignou porque lhe cobraram dinheiro pelo saco de plástico onde lhe meteram as compras.
“Mas que país este!...” – desabafou a senhora escandalizada.
“Oh minha senhora!... – exclamou a minha prima Ambrosina – O que é que o país tem a ver com o saco de plástico?”
“Então, porque este país é tão miserável que até temos de pagar um reles saco de plástico...”
“A senhora realmente não devia estar neste país. Resta saber se algum outro estaria disposto a aceitá-la.”
É assim a minha prima Ambrosina. Já teve vontade de dizer o mesmo a alguns políticos que são do mesmo quilate da senhora do saco de plástico. Com a diferença que eles não dizem alarvices com o pretexto do preço de um miserável saco de plástico.
Alguns deles insultam a inteligência da minha prima Ambrosina, coisa que ela não aceita de forma alguma. Mas o que é que ela terá de fazer para evitar esse incómodo, se a toda a hora depara com eles na sua frente, embora em tamanho ainda mais reduzido, daquele que efectivamente ela lhes atribui.
É um problema incontornável, pois apesar de saber que tem direito à indignação, sabe que esse direito não lhe dá direito a coisa nenhuma, pois nem sequer pode meter uma providência cautelar para que o meritíssimo juiz os mande calar, mesmo que por pouco tempo.
Sempre era um período de repouso, uma espécie de férias no sossego do lar, vendo televisão despoluída, como se tivesse energia limpa, vinda dessas miríades de ventoinhas que começam a proliferar pelas ventosas montanhas de todo o país. Pois, lá está ele a dizer que essas dúzias de ventoinhas não passam de tretas saídas de pacotes de fantasias.
È por estas e por outras que a minha prima Ambrosina não pode deixar de perguntar:
“Mas, afinal, as ventoinhas existem ou não?”
Depois, lembrou-se do saco de plástico e do país. Não, não tinha a mínima intenção de culpar o país, como o fizera a senhora de todas as confusões. Culpava, sim, os senhores que semeiam confusões por onde passam e onde abrem a boca, sem que se vislumbre que alguma vez tenha entrado mosca.
São as alarvices que caracterizam os alarves, que a minha prima Ambrosina já não é capaz de ouvir. Podia fechar os ouvidos com auscultadores, onde até podia meter música agradável, voltando as costas à televisão, ou então fechar-se no seu quarto. Mas a minha prima Ambrosina diz que não é dessas.
Ela não vira a cara à luta. Quer estar a par do que dizem os alarves para poder conhecê-los cada vez melhor. No entanto, continua à procura de uma solução para se ver livre deles. Nem que seja por pouco tempo.
Não pode meter férias, nem pode meter uma providência cautelar. Mas tem de haver uma alternativa.
A minha prima Ambrosina nunca desistiu de conseguir o que pretende e está convencida que ainda não será desta que vai desistir.
Há dias ouviu dizer que só não vence quem não luta. De repente ocorreu-lhe uma ideia luminosa!... E se eles lhe concedessem apenas uma trégua?... Oh prima!...