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afonsonunes

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Ninguém tem nada que estranhar, porque ele é assim mesmo, perfeitamente coerente consigo próprio, quer se goste quer não se goste de como ele é. Isto, talvez seja um princípio aceitável para um único português, cujas virtudes e defeitos estão absolutamente justificados e aceites, só porque são os dele.
Qualquer outro português não tem direito a ser coerente, nem incoerente, desde que saia dos limites do seu bom ou mau feitio. Ser um teimoso coerente com a sua maneira de ser, não significa que tenhamos de aceitar de bom grado essa teimosia, seja lá a quem for.
Num plano diferente poderíamos colocar o problema de um criminoso, que também é coerente consigo próprio, ao cometer um crime. Pode haver coerência, sim, mas o que não há é justificação para essa atitude, só porque se é coerente.
Por cá, em política, do meu ponto de vista, com uma única excepção, todas as asneiras, mesmo as coerentes, são tratadas, geralmente, como asneiras, mais ou menos severamente, servindo essa coerência para caracterizar e denunciar procedimentos errados, ainda que teimosamente continuados.
Já o português que constitui a figura excepcional, por ser excepção, goza do privilégio de não ter críticos duros, porque tudo o que diz e faz se insere num padrão de coerência com a sua personalidade, logo, tem de se entender como estando tudo correcto, ainda que, medido esse padrão pelo de qualquer outro político, se note claramente que o não está.
Daí que figuras políticas, normalmente, bastante contestatárias, com base nos seus princípios programáticos, sejam de uma benevolência extrema quando falam dele, quando não o elogiam, o que acontece até em assuntos que contradizem a sua doutrina normal. Por vezes chego a pensar onde está a tão propalada independência e isenção, que tão apregoada é noutras circunstâncias.
Entre estes, está um que, ao que parece, foi alvo de uma queixa por palavras dirigidas a uma pessoa do meio empresarial que, não gostando do que ouviu, recorreu à via judicial. Parece-me um acto natural, que todos os democratas devem aceitar, quer elas sejam as partes supostamente ofendidas ou ofensoras.
Parece-me até que é para isso que existem os tribunais que, com credibilidade ou sem ela, decidirão quem é que diz ou faz aquilo que não devia dizer ou fazer. No caso, para decidir se o político falou verdade, em relação ao que disse do empresário não sei de quê.
O político recebeu a notícia do processo, esbracejando que se tratava de uma ameaça inaceitável à sua liberdade de expressão. É caso para dizer, onde é que cabe a liberdade de acção do empresário.
Não sei, nem quero saber, se havia ou não havia motivo para processar as tais palavras libertadoras da expressão inegável do político mas, já agora, gostava de saber onde está a inaceitabilidade da ameaça, ou até mesmo a ameaça já que, pôr um processo a alguém, não é uma ameaça. É um facto. 
É apenas um processo, justo, injusto, logo se verá. Quem de direito o dirá.
Não acredito que o político esteja com medo do processo, apesar de ter todas as condições de defesa, muito acima de qualquer vulgar cidadão. Se não tem medo, podia simplesmente deixar correr o marfim, sem o nervosismo de que parece ter ficado possuído.
Também este é um caso de coerência, ainda que sem qualquer virtude. Mas também é um caso de incoerência por parte de quem, já com estatuto de privilégio, ainda quer a bênção da intocabilidade.