Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

15 Jan, 2010

Não acredito

 

É evidente que há sempre quem acredite e quem não acredite, ou não fosse o pessoal desconfiado e incrédulo perante as sucessivas vagas de poluição sonora que diz que diz, mas não diz, para logo a seguir relevar que, afinal, se todos fizerem aquilo que ninguém tem querido fazer, talvez se faça alguma coisa.
Perante tanta indefinição entre esses momentos de pessimismo exacerbado e outros momentos de optimismo condenado, antes de manifestado, fico entalado entre o fatalismo malvado do passado e malabarismo dum futurismo despreocupado e confiante, qual dos dois mais arrepiante e desconcertado.
Desde logo, sou tentado a não embarcar em nada disso, o que significa que não acredito, nem nuns, nem noutros, caindo no vazio da minha imaginação peca e seca de qualquer reminiscência de utilidade. É assim que me encontro neste momento, cercado por ilusões de promessas de conversas frutuosas.
Parece que já começaram mas, de frutos, nem secos. Contudo, também parece que alguém confessou, cheio de optimismo, que a coisa correu ‘bem’, contrariamente ao que parece que correu mal a outros, embora o mal dependa do ponto de vista dos objectivos esperados. Quem não espera nada, não anda a correr mal nem bem. Está parado, claro.    
Porém, continuo a não acreditar que alguém tenha sido capaz de correr bem. Não acredito que quem sempre gostou de marcar passo, assim atacando as hostes adversárias com fogo à distância, queira agora empurrar outro combatente para a frente, precisamente, para a frente de combate, que é a zona do corpo a corpo.
Não acredito que o medo de vir a perder uns tantos corredores na próxima etapa, motive uma declaração tão optimista de estar a correr bem, uma corrida que, normalmente, tem corrido mal. Apesar desse óbice, a vida tem corrido tão bem, que é uma pena que se volte ao tempo do táxi que até pode servir de carro vassoura.
Uma coisa é o princípio da etapa, outra bem diferente é a parte final, sobretudo se esta se desenrola a caminho do cume da montanha, onde é muito mais provável que as canetas falhem e fiquem impossibilitadas de subscrever o acordo que acabará, inevitavelmente, por ser corrido a pontapé.
É por essas e por outras que no início tudo pode correr bem e depois, lá mais para diante, tudo pode correr mal, a ponto de se lamentar que a corrida tivesse começado pois, para frustração e perda de tempo, bem podiam ter sido evitadas, se o realismo não tivesse sido trocado pela eterna mania de deitar poeira para os olhos dos outros.
Não acredito que toda esta encenação de corridas negociais fora do tempo e do lugar próprio, não tenha sido uma espécie de armar aos tordos antes de a azeitona já estar preta. Porque os tordos não comem azeitona verde, tal como os negociadores não compram trapaças que sabem de antemão que não conseguem impingir aos seus clientes.
Após o falhanço na hora de fechar a porta, todos dirão que foram inexcedíveis no esforço e na vontade de negociar mas, como já era previsível, concluirei que negociar é impor condições mais ou menos inflexíveis, de modo que sejam mesmo inaceitáveis, até porque são vários a querer impor coisas totalmente diferentes.
Baralhar e dar de novo parece ser cada vez mais a única solução. Mas, há muita hipocrisia em tudo isto, porque nem todos querem arriscar o bem bom de que desfrutam agora, tendo muitas dúvidas de que os trunfos lhes voltem à mão com a mesma sorte da última vasa. Outros dirão que quem não arrisca não petisca.
É por isso que quase todos os jogos andam muito à volta da batota. Ali ao lado, alguém estará a rir interiormente, mas de rosto bem fechado, como que tentando condenar atitudes que nunca conseguiu levar a cabo quando delas bem precisava.