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afonsonunes

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Ainda não ouvi nenhuma sonora gargalhada por esta afirmação categórica, talvez porque ninguém se quer dar ao trabalho de a dar, mas já adivinhei umas tantas caretas enfeitadas com sorrisos brincalhões, como que a dizer, quem será este, para merecer ser condecorado.
Pois o problema está aí mesmo. É que não sabem quem eu sou, senão, estou em crer, até concordavam plenamente comigo. É sempre bom conhecermos os fundamentos para depois podermos chegar aos levantamentos, isto é, passarmos das raízes para a rama.
Quando oiço falar que alguém vai ser condecorado arrebito logo as orelhas e ponho-me a pensar. Passado algum tempo concluo que a maior parte das vezes não encontro motivo nenhum para tal honra, logo, não havendo motivo, também me parece que não há honra nenhuma.
Parece-me que tem sido condição quase essencial para se ser condecorado, ter sido governante. E a prova disso é que já devem ter sido quase todos condecorados. Seguindo a minha lógica, muitos deles foram condecorados por não terem feito nada, senão o país estava diferente. Sim, compreendo que alguém diga, mas diferente de quê.
Como não sou de intrigas, direi que estaria diferente daquilo que fariam dele os candidatos a governantes que nunca conseguiram sê-lo. No entanto, esses heróis nunca foram condecorados e têm muito poucas hipóteses de vir a receber uma medalhita das mais baratas. A não ser que vão para um clube de pesca qualquer.
Ora, só o facto de nunca ter sido governante, já me devia dar direito a ser condecorado. Porque nunca fiz daquelas coisas que nos deixam na cauda de quase tudo, podendo orgulhar-me de nunca ter prejudicado o país nem os portugueses, com os meus disparates, que ficaram sempre no âmbito das minhas parvoíces privadas.
Se isso não merece uma condecoração, então, acrescento mais um motivo para a merecer. Não sou, nem nunca fui um político daqueles que não fazem, nem deixam fazer mas, mais tarde ou mais cedo, lá acabam por ser condecorados numa comemoração qualquer. Como não tenho honras destas no meu currículo, fica reforçado o meu merecimento. 
Para não pensarem que as minhas virtudes se situam apenas na área governativa e política já referenciadas, acrescento que também estou totalmente livre de qualquer suspeita no campo da magistratura e da diplomacia, pois nunca julguei ninguém, nem bem nem mal, nunca prendi nem mandei prender ninguém, logo, nunca pratiquei uma injustiça, mesmo das mais leves.
Já que também me lembrei da diplomacia, tenho a referir que nunca me intrometi nas funções de ninguém, mesmo nas mais modestas, do tipo de funcionários que me prestam os mais variados serviços públicos, sendo unânimes em dizer que sou, e sempre fui, um verdadeiro diplomata para com eles. Gente que sabe o que é reconhecimento e respeito pelos outros, pois.
Agora, que já conhecem um pouquinho mais da minha pessoa e de tudo aquilo que não fiz, nem tinha obrigação de fazer, espero que compreendam o meu incómodo, mais, a minha estupefacção, por ainda não ter sido condecorado. Mas, continuo à espera.
Estou a ver que tenho de passar a andar de mão dada com algum condecorado, ou candidato a condecorado, desses de que ouço falar quase todos os dias, para ver se me toca tal honra por contágio, já que não adianta o meu indiscutível merecimento.
Já reparei que ainda não consto da próxima lista e, por ela, já prevejo quem constará das próximas. Com esses, recuso terminantemente ser condecorado.