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afonsonunes

afonsonunes

18 Jan, 2010

Amanhã vou a este

 

Podia ir a outro lado qualquer, mas entendi que fazia todo o sentido rumar naquela direcção, que mais não fosse, para marcar uma certa diferença com todos aqueles que resolveram ir a oeste. Bom, também podia ter optado por ir a norte ou a sul, mas aí haveria logo quem atribuísse conotações pouco claras, que eu de todo não quero.
A verdade é que eu tinha de ir a um lado qualquer para vincar bem o rumo que pretendo meter no GPS, com vista às minhas viagens por todo o país que, a não começarem já, corro o risco de cair numa modorra que me levará, inevitavelmente, a uma sesta prolongada, que só serve para alegrar aqueles que pensam que eu passo a vida a dormir.
Indo para este tenho perfeita consciência de que os frutos são mais maduros e menos bichados que no lado oposto e tenho a garantia de que vou encontrar uma certa sede provocada por um vento suão que deixou tudo seco e virado de pernas para o ar. Ora, não há nada melhor para uma viagem, que a certeza de encontrar muitos braços no ar à minha espera.
É sabido que eu não mato a sede a ninguém, pois já me basta a minha própria sede, que chega a ser mesmo muito incómoda, e até teimosa e provocadora, mas no este basta-me exibir um sorriso daqueles que nunca mais acabam, para que tudo fique saciado, mesmo continuando com a boca seca como a palha de centeio lá do sítio.
Já me perguntaram se levo alguma lembrança para aquela gente que me aguarda com muita ansiedade e muito maior necessidade. Respondi que não, pois não tenho ninguém que me vá às compras, nem tenho ninguém que me fie nada no comércio, com o argumento de que o meu ordenado não dá para extravagâncias.
Contudo, sei de fonte segura que já houve quem prometesse matar-lhes a sede em poucos minutos logo, tenho a esperança que nem me falem nisso, senão lá terei de recorrer ao telemóvel e enviar com urgência uma mensagem daquelas a que vulgarmente chamam recados.
Para não ser muito directo, o conteúdo dessa mensagem/recado alertará alguém em termos indefinidos, presente algures em lugar dificilmente identificado, para o facto de que no este não chove há muito tempo, pelo que é urgente que o referido fulano, abra os olhos e não vire as costas a tanta sede junta. Direi mesmo que tem obrigação de o fazer, senão garanto que vai haver mais recados, que são o meu subsídio sempre à mão.    
Esta simples e frutuosa acção, resultado de uma viagem meticulosamente programada, já chega para deixar em festa todo o este, como se uma nova era de prosperidade nascesse nesse mesmo dia. Não posso garantir antecipadamente se nasce ou não, mas lá que vai nascer uma nova polémica, ai disso não tenho dúvida nenhuma.  
Tal como é costume, ninguém me vai perguntar nada sobre o que vou ali fazer. Em certa medida, têm razão, já que sabem que tudo isto é apenas uma estafa, longe dos problemas das estufas que o vento levou e dos tomates que ficaram irremediavelmente atrofiados de verdes. Mas as picantes malaguetas, que se salvaram milagrosamente, serviram para animar as conversas preparatórias da minha ida a este.
O anúncio da visita em si não despertou grande interesse fora do este. Mas eu parto para ela com a satisfação interior de que já tenho companhia para a digressão que mais tarde farei pelo país. Satisfação que resulta do facto de ter antecipadamente garantido o sucesso que alguns começavam a pôr em dúvida.
É por isso que esta viagem ao este é já o início de uma digressão triunfal, alegre, muito alegre, pelo que se justifica que, fora do este, já só queiram falar-me da alegria que sabem que eu sinto, mas que não quero nem devo demonstrar para já. Se alguém vir um parvo no meio de tudo isto, não sou eu com certeza.
 

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