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afonsonunes

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Por vezes ainda consigo estar alguns minutos seguidos em frente da televisão, procurando nos botões do comando algum motivo para não desligar aquilo, com a decepção do costume. Ao passar por um dos canais, uma frase me feriu de imediato a sensibilidade que, à partida, já estava muito enfraquecida.
Dizia o apresentador, com o seu ar de entendido e ao mesmo tempo de humorista, que o estado era mau gestor do dinheiro dos contribuintes, porque quanto mais tinha, mais gastava. A ideia tem dois aspectos bem distintos.
O primeiro é que, à primeira vista, parece que o bem humorado apresentador tem razão, pois o contribuinte está a alimentar um estado gastador, quando podia ser o próprio contribuinte a gerir o seu dinheiro, sem o entregar ao esbanjo estatal.
O segundo aspecto é que o estado, sendo bom ou mau gestor, não precisa de ter dinheiro dos contribuintes para gastar, podendo mesmo deixar de ser gestor, e deixar também de cumprir as suas obrigações de regulador da sociedade. Logo, faz todo sentido querer fazer passar a ideia de que, se o estado não tiver dinheiro, não é mau gestor, porque não o gasta.
Na realidade, quem despeja ideias destas para o éter, é quem, logo a seguir é capaz de fazer um grande alarido, porque o estado não reduz os impostos sobre os combustíveis, ou não subsidia os agricultores, ou tantos outros sectores em dificuldade. Aqui, acusa-se o estado de insensibilidade, porque não ajuda quem precisa, logo, é mau gestor porque não gasta dinheiro, como é sua obrigação.
Todos sabemos que falar do vil metal é o tipo de conversa que tolda a razão e dá à língua o picante desempenho, semelhante àquele que se lhe conhece a seguir às voltas que ela dá a uma lagosta envolta em piripiri, tendo como bombeiro de serviço, um abundante e bem gelado vinho branco de uns milhares de euros.
Também sabemos todos que falar do estado que nos regula é, para muitos regulados, uma manifestação do estado em que eles próprios se encontram, ainda que a lagosta deles seja uma malga de azeitonas sapateiras e o vinho tinto carrascão passe do garrafão de cinco litros para as suas gargantas incontroláveis. Depois, é natural que fiquem num estado lastimável.
Alguns deles, em estado completamente desregulado.