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afonsonunes

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Quando já sentimos o calor das labaredas na cara, tentamos a todo o custo procurar uma saída que nos permita fugir daquela angústia sufocante, em busca de um lugar seguro onde a pele sinta um pouco de frescura que permita manter a vida, mesmo que tudo o resta esteja em cinzas.
Se o fogo quase nos envolve e o fumo nos sufoca, o pior que nos espera é sentirmos que alguém nos vai barrando as saídas para a fuga, à medida que nos aproximamos delas, cortando-nos todas as possibilidades de salvamento, em nome de uma capacidade de fuga que nos reduz cada vez mais a possibilidade de sobrevivência.
Em última instância, depois de cada um de nós, é o país que começa a ficar cercado pelos incendiários da política que, em nome dos habituais argumentos politiqueiros, fecham todas as saídas para uma solução airosa que elimine os constrangimentos que nos impõem de fora, como se pudéssemos ter a veleidade de os ignorar. Como se pudéssemos sequer pensar em fazer apenas o que nos apetece. Ou o que apetece aos divertidos e felizes incendiários.
Incendiários inocentes mas perseguidos, só porque cometem o incompreensível crime de riscar um simples fósforo, tão pequeno, minúsculo mesmo, comparado com a intenção daqueles que os acusam de quase extinguir o mundo com ele, como se isso fosse possível. Segundo eles, e todos aqueles que com eles se solidarizam, não se pode condenar gente por causa de uma coisa tão insignificante chamada fósforo.
Isto também me faz lembrar a história do caçador que gosta muito de todos os animais, mesmo daqueles que mata, com a desculpa de que a obrigação da caça é ser capaz de escapar aos tiros dos caçadores. E a obrigação do caçador é matar a caça. Tudo isto parece ser verdade, mas falta aqui o espaço para o amor que eles têm aos animais que abatem.
Se as árvores morrem de pé, nós corremos o risco de morrer sentados, à espera do dia do nosso funeral, já que a última coisa que outros querem é prejudicar o negócio do cangalheiro, com o qual há muito se solidarizaram. Esqueceram que o negócio dele é o nosso fim, e a vida dele depende da nossa morte.  
Política, árvore, madeira, incendiário, caçador, cangalheiro, morte. Tantos argumentos para falar do fogo que anda tão perto das nossas barbas e tão longe do pensamento de quem o provoca, na esperança de que o fogo apenas queime os outros e os deixe, a eles, incendiários, no lugar daqueles que o fogo queimou.
Quando o fogo nos cercar de vez, então a morte não demorará e os incendiários, tal como o cangalheiro e todos nós, estaremos juntos, como se todos nos tivéssemos portado lindamente, para merecer a honra de termos tido um fim como bons irmãos, ao menos unidos, finalmente, já que antes o não conseguimos.
Para lá das muitas vozes que já hoje se levantam com a tese do caminhar para o abismo, umas mais clarividentes, outras mais confusas, um dia virá em que a história se há-de fazer, com mais verdade, contrariando as muitas mentiras de agora.
Quando o fogo nos cercar definitivamente, quem não soube viver, ao menos que saiba morrer.