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afonsonunes

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O carago é qualquer coisa que eu não sou capaz de definir, nem vou perder tempo à procura da origem desta ‘originalidade’ nortenha já que, no resto do país, se pronunciam coisas semelhantes com um valor acrescentado muito mais apimentado. Mas, o norte é o norte, e os homens e mulheres daquelas bandas têm a língua bem desprendida do céu-da-boca.
Curiosamente, toda a gente do centro e do sul, fala da gente do norte com uma descrição e uma simplicidade, como se fossem os seus irmãos da mesma idade, sem espaventos nem falsos ares de superioridade ou inferioridade. Assim como se fossem os vizinhos ali do lado, a quem se pede um cigarro ou um raminho de salsa.
Já o homem do centro bem podia ser considerado o homem da porra, da porrada ou da porreirice, pois é ver como a toda a hora nas rádios e nas televisões se faz uma festa quando se fala de alguém do centro. Do tipo de - ai é do centro? - então é porreiraço, ou, ora aqui está um homem como deve ser. Uma grande salva de palmas para este homem que se vê logo que é do centro. (Onde é que eu já ouvi coisa semelhante?)
Suponho que esta maneira de distinguir o homem do centro, talvez tenha a ver com o facto de não fazer sombra a ninguém, tanto do norte como do sul. É assim uma espécie de ‘gajo porreiro’ para toda a gente, mesmo para aquela gente que quer andar sempre nas palminhas dos outros. Por isso, mais uma grande salva de palmas para o homem do centro. Sim, porque gente do centro é outra gente.
O homem do sul contenta-se com pouco. Dêem-lhe uma gaita, se é que ele não a tem, e eis que logo fica a cantar a Tia Anica de Loulé, como se ouve cantar no norte aquela que diz que eles são campeões, mesmo quando o não são. São feitios. Mas, nortenhos e sulistas são muito discretos, pois não falam senão quando lhes dirigem a palavra, tal como apreciam que também os tratem assim.
Não me lembro de alguma vez ter ouvido pedir uma salva de palmas para o homem ou a mulher algarvia. Muito menos para os alentejanos, que logo diriam que essas coisas são meladices que só são dirigidas por gente melada, às pessoas do centro. É que no sul, a vida é uma gaita de todo o tamanho, no meio daquela algaraviada toda.
Qualquer apresentador de concursos, tipo preço errado, distingue apenas os concorrentes do centro, mimoseando-os com aqueles piropos de gente boa, de grandes terras, com repetidos pedidos de salvas de palmas, muita propaganda gastronómica e onde nem é preciso pedir nada para aparecer de tudo. Claro que a gente do centro, o homem do centro, a mulher do centro, bem merecem essa discriminação positiva.
Mas, ainda mais elucidativa é a praça alegre ou as danças em família, da nossa geograficamente centrista televisão, com centristas devotos e assanhados a animá-la, onde o regionalismo exacerbado esquece, quando não minimiza, os mal encarados nortenhos e sulistas, na óptica desses tais centristas endeusados, que julgam que todas as virtudes estão no centro. Nunca aqui se pediu uma salva de palmas para o homem do norte, ou a mulher nortenha, ou sequer para alguém do Porto. É uma discriminação. Negativa, obviamente. 
É que, ser do centro, é ser diferente, não é nada que se pareça com ser apenas português, mesmo que se jogue bem ou mal no pontapé na bola. É que o centro até já é uma nação há muito tempo, logo, ser centrista ou ser do centro, no mapa, está muito à frente de ser português, mesmo sem estar a pensar na selecção. Pudera, dizem eles, não foi aqui que nasceu a república das bananas.
Carago, que eu às vezes nem estou em mim, a pensar em certas coisas do norte. Porque a vida, mesmo no centro do país, dizem que está transformada numa grande porra. Depois, mesmo quando damos uma escapadela até ao sul, não há gaita que nos anime.
 

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