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afonsonunes

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Era só o que faltava que eu não pudesse distinguir aqueles que amo, com todo o amor que o meu coração pode libertar, mesmo que aqueles a quem amo, detestem que os ame também. Isto pode parecer filosofia barata mas, para mim, se for filosofia, ela até me parece bastante cara, pois nada no meu coração pode ser dado de barato.
Dizem uns que o amor é falso como Judas, enquanto outros afirmam que o amor é uma coisa maravilhosa. Por mim, direi apenas que o amor não é uma coisa, embora não arrisque dizer aquilo que julgo que ele é. Muitas vezes é simples demais, outras vezes é uma autêntica complicação.
Complicação de tal ordem que noto perfeitamente quando em seu lugar aparece o ódio mais feroz, contrastando radicalmente com o amor cândido e sereno que foi substituir quase de um dia para o outro. Custa a crer que possa amar-se e odiar-se com a mesma intensidade, a partir de corações que julgamos feitos de manteiga constantemente a derreter-se.
Pura ilusão, porque também há corações que são autênticos blocos de gelo que nunca dão o mínimo sinal de derretimento, mesmo quando outros, os de manteiga, tentam transmitir-lhes um pouco do seu calor, sem nada pedir em troca. Pura perda de tempo, pois quem só conhece o ódio, não pode sequer ouvir falar de amor.
Não costumo ouvir dizer que, ódio com ódio se paga, embora saiba que isso também existe. A todos aqueles que odeiam alguém, com o chamado ódio de morte, sugiro que não façam muito escarcéu, só porque desconfiam que o vosso odiado, também vos odeia. Não esperem que o ódio seja um exclusivo das vossas mentes.
Vós, que tanto pugnais pela liberdade de expressar tudo o que vos vai na alma, não se compreende porque não dais àqueles que odiais, o mesmo direito de expressar o amor ou o ódio que cultivam por aqueles que ama ou odeia. Amar ou odiar não é crime, tanto para as vossas manifestações desses sentimentos, como para as dos outros.
Se as vossas manifestações de amor ou de ódio se transformarem em desejos daqueles que a gente sabe, não se perturbem se receberem em troca desejos semelhantes. É a vida, vida de cão rural, que ladra muito e come pouco, precisamente, para ladrar muito devido à fome, assustando, desse modo, quem tente aproximar-se.
Levar pancada e dar amor, realmente, só o cão. Qualquer cidadão, desde aquele que é tratado abaixo de cão, até àqueles que têm obrigação de ouvir ladrar a toda a hora, apesar da altura dos seus palácios, como cidadãos que são todos eles, têm direito ao amor e ao ódio, têm direito a retribuir os sentimentos que lhes desejam, têm direito a falar como os outros falam, tal como têm de ouvir aquilo que os outros dizem.
As leis não se infringem, só porque se pensa em praticar um crime. Até aí, o pensamento é livre. As leis não se infringem só porque se tenta oferecer aos outros, o que os outros nos oferecem a nós. Já em matemática se diz que a ordem dos factores é arbitrária. As leis não se infringem só porque há muitos ignorantes a dizer a mesma coisa. Mesmo que alguns ignorantes sejam cultos na ciência da aplicação da ignorância.
Nunca o ódio se deve pagar com ódio. Mas todos os que odeiam e levam o ódio para o campo de batalha, não podem admirar-se que se esgrimam armas de defesa que os podem atingir. Sempre se ouviu dizer que quem vai à guerra dá e leva. Pelos vistos, há muitos guerreiros que pensam que só eles podem dar. Daí que resmunguem tanto quando lhes dão.
Amor com amor se paga. Bem sabemos que nem sempre é assim.