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afonsonunes

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Realmente o pior disto tudo é a quantidade de gente que não almoça há uma data de tempo à espera que ele caia, pois ninguém quer perder pitada desse momento histórico para muitos, mas também momento histérico para outros. Não me parece que seja justa, esta diferença mínima, de uma letrinha apenas e com o mesmo acento.
Histórico e histérico são coisas tão diferentes que deviam ter, pelo menos, para aí uma diferença de três letras que era, por exemplo, cai ou não. É que, com aquela semelhança toda, a gente fica a pensar que isso é a mesma coisa. Que pode cair ou não cair, que isso é igual ao litro logo, não dá motivo a festas nem a foguetes, ainda que sejam de lágrimas.
Além de poder cair ou não, também pode saltar por sua livre e espontânea vontade, com toda a segurança e com toda a calma do mundo. Para muitos, continuaria a ser uma queda, mesmo que ele ficasse de pé, sorridente, como se estivesse a bater-se à fotografia, com a melhor cara de sempre, mesmo frente aos jornalistas.
Também há muita gente que não quer pensar sequer que ele caia, muito menos que seja tentado a fazer uma fuga para a frente, ainda que agora não haja nada em vista, nem para trás, pois isso levaria a pensar que se tinha passado dos carretos. Mas dizem que isso não é o género dele.
Mas há muita gente que anda a tentar empurrá-lo, embora por vezes pareça que lhe estão a dar aquela força do vento que faz com que o barco à vela consiga navegar em sentido contrário a esse mesmo vento. Ele há coisas tão esquisitas que a minha compreensão não consegue navegar.
Então, anda tanta gente a esfalfar-se para ver se ele cai de vez, abdicando dos seus almoços, ficando alerta dia e noite à espera da notícia da inevitável e ansiada queda para, quando ele vai mesmo para cair, já meio desequilibrado, soltam um grito de compaixão e, estranhamente, agarram-no firmemente e oferecem-lhe o equilíbrio quase perdido.
É caso para dizer que nem ele cai nem a gente almoça mas, assim, também a janta vai para o caneco, se não se conclui rapidamente se querem que ele caia, ou se querem que ele não caia. Essa de ter de cair porque nem ele se aguenta, nem há quem consiga já aguentá-lo mais, para depois dizer que não se pode deixá-lo cair, só pode dar numa fome interminável.
Portanto, acho que é melhor despacharem-se com a decisão final, quer ela seja, cai, quer ela seja, não cai. Porque eu também estou cheio de fome e não gosto nada que me obriguem a engolir a comida fria, embora esteja com a boca a escaldar por causa de umas asneiras que andam aqui à volta da língua, numa ânsia para saírem desta caldeira fervente que é a minha boca.
Mas, posso garantir que não vai sair nada, porque prefiro ter de escamar a língua, a aliviá-la com a saída das asneiras que estão a impedir-me de ter à minha frente, na minha mesa, o almoço que já tarda e apenas provoca montes de água na boca.
Porque, nem ele cai, nem cai nada na minha boca.