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afonsonunes

afonsonunes

21 Fev, 2010

Os novos criminosos

 

Tal como o mundo está em permanente evolução, a justiça está em contínua revolução, não havendo já qualquer margem para que a jurisprudência determine os caminhos a percorrer quando as indecisões legislativas abrem espaço à dúvida. Isso foi chão que deu uvas porque nos dias de hoje, a insanidade mental da frescura substituiu, definitivamente, o bom senso das mentes maduras.
Ainda sou um daqueles que se lembram de que um criminoso era todo o indivíduo que cometia um crime, um crime era toda e qualquer infracção a qualquer lei, e uma lei era uma coisa que constava nos diversos códigos que regem o país. Se não era bem isto, devia ser assim uma coisa mais ou menos parecida.
Perante esse quadro, não havia possibilidade de o criminoso alegar que a lei estava mal feita, nem o juiz podia inventar um crime para condenar um criminoso inventado. Pois, já sei que sempre houve uma justiça para pobres e outra para ricos, e uma justiça que tinha as suas origens na Pide.
A primeira ainda existe e, ou muito me engano, ou nunca deixará de existir. A segunda já não devia existir porque já não há Pide. O problema é que hoje o país está cheio de sucedâneos dela. Fala-se muito em bufos e quejandos por parte dos órgãos do governo e do partido que o suporta. Não me custa nada acreditar que haja essa tradicional tendência.
Mas, a bufaria existe e está implantada como uma rede mafiosa em tudo o que é corporação ou organização, visando e conseguindo em muitos sectores, subverter o estado de direito, como alguns costumam agora ufanamente dizer dos seus adversários. Não sou eu que vou avaliar a dimensão da subversão de uns e o tamanho da subversão dos outros.
Porém, não é difícil avaliar à vista desarmada quem não cumpre as leis do país, a começar pela Constituição da República, sem que haja quem tenha a coragem, como lhe compete, de fazer cumprir, e fazer com que haja consequências para quem não quer cumprir. Sem isto, seremos uma ilha de marginais, ainda que eles sejam muito ilustres e muito defensores de certas liberdades e de certa democracia, em que só eles estão a coberto de qualquer sanção.
Nunca poderá haver liberdades colectivas reais, se não houver primeiro, sérias e seguras liberdades individuais, ou não seja o indivíduo a base de toda a sociedade. Mas não pode haver indivíduos que buscam permanentemente encontrar nos outros, os defeitos que não conseguem eliminar de dentro de si próprios.
Os novos criminosos são precisamente aqueles que sonham com crimes que pensam que outros praticam em tudo quanto fazem, armando em heróis porque se consideram os grandes lutadores para que as leis que não lhes interessam não sejam cumpridas.
Os novos criminosos são todos aqueles que deixam que tudo à sua volta se degrade, que haja vítimas inocentes a sofrer os maiores vexames, só porque não é fácil, só porque têm medo de agir, só porque receiam deixar de ser populares, julgando que o são, enfim, só porque há muitos interesses em jogo a que não são capazes de resistir.
Os novos criminosos são todos os que têm o crime sempre colado à ponta da língua. Podem estar a defender o seu tacho. Sim, porque não é só um dos lados que tem tachos para a comidinha dos boys de manga-de-alpaca. Do outro lado, os tachos são grandes panelas de banquetes para colarinhos engomados, que só conhecem a lei do lucro, mesmo o fraudulento, que é tanto mais saboroso, se for obtido roubando o estado e os boys.
Os novos criminosos, um dia descobrirão que os crimes que praticam agora virão, inevitavelmente, a virar-se contra eles, pois nada é eterno, muito menos o reino em que agora se movimentam com toda a impunidade.