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afonsonunes

afonsonunes

03 Mar, 2010

O padre PSD

 

Não sei porquê, mas ao olhar para o actual PSD vejo à minha frente um padre na igreja, cumprindo o santo sacrifício da missa diária. E vejo nessa igreja uma espécie de Assembleia da República, com os deputados e as deputadas transformados nas beatas e beatos que se sentam nas primeiras filas dos bancos dessa igreja.
O padre que eu vejo ali, tem uma imagem permanente no pensamento, imagem que não é mais que o demónio em pessoa, não reparando sequer que tem à sua volta muitas imagens santificadas, muito mais de acordo com a celebração da santa missa, que devia constituir a manifestação da sua devoção e das suas orações.
Não é só o padre que pensa no mafarrico, pois as beatas e os beatos das bancadas da frente, dizem sempre ámen, à visível comunhão de pensamentos que os une naquela espécie de missa excomungada pelos ocupantes dos bancos da retaguarda, considerados ali como os ateus e defensores das teses diabólicas.
O padre da minha imaginação aceita a toda a hora que os praticantes de outros credos assistam à sua missa. E canta com eles algumas orações que mais fazem parte do cerimonial religioso dos seus acompanhantes, que propriamente do ritual que se esperava que o padre mantivesse no ideário do seu culto e na tradição das suas missas.
Depois, também um pouco à revelia dos estudos e práticas que aprendeu no seminário, ao longo de tantos anos, aderiu apaixonadamente a um certo tipo de folclore que contrasta de forma eloquente com os salmos que se comprometera a cantar, o que constitui, para os crentes mais tradicionalistas, um imperdoável pecado mortal.
Há quem afirme que Deus só há um, embora os crentes lhe atribuam vários nomes, consoante as suas convicções e as suas preferências sobre a maneira de exteriorizar a sua fé. O padre que eu vejo no meu imaginário também é único, principalmente, na sua capacidade de aglutinar, de juntar, de orar, em consonância com todos os discordantes, e sobre tudo o que é dissonante.   
Esta missa, este padre e esta igreja, correm o risco de estar a fazer a apologia de credos menos praticados e com muito menos praticantes, podendo vir a perder influência para os ateus que, perante aquilo que eles consideram incongruências de oratória, têm muitas hipóteses de verem crescer os seus créditos junto dos hesitantes e mesmo de alguns crentes menos convictos.
A afluência à missa, por mais que os crentes não queiram acreditar, depende muito de como ela é dita. E a maneira como ela é dita, depende quase exclusivamente do padre que a diz.
Não consigo perceber de onde me veio esta incompreensível ideia de associar um padre ao PSD que, ainda por cima, é um padre único, numa igreja onde ele não é o único pregador, mas também não é o único pecador, embora só veja os pecados dos outros, quando eles não rezam as suas orações. Até porque a maioria reza com ele.
Para complicar ainda mais a situação, o padre PSD vê-se a braços com a difícil e ingrata tarefa de ter três sacristães que, também eles, comungam de maneira diferente. Um quer que seja ela a meter-lhe a hóstia na boca, à maneira antiga, outro quer que seja ele a pôr-lhe a hóstia na mão, à moderna, o terceiro, quer servir-se ele próprio do cálix divino.
As beatas e os beatos das primeiras filas da igreja, por enquanto, olham para os sacristães com a esperança de que chegue a padre, aquele que mais se enfurecer com o mafarrico.