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afonsonunes

afonsonunes

05 Mar, 2010

Última hora

 

Ao contrário da roupa velha que diariamente encontramos nas páginas dos jornais e nos telejornais de sábado a sexta, estas que vou abordar hoje são mesmo notícias fresquinhas, tão fresquinhas que algumas delas ainda não saíram mesmo.
Começo exactamente por aquela que mais impacto está a ter junto da opinião pública, especialmente, daquela que diz acreditar em tudo o que ouve, seja lá quem for a produzir o ruído. Pois bem, sem mais fazer render o peixe, informo solenemente que o governo acaba de transformar o PEC em PIR.
Exactamente, o Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC), acaba de mudar de nome para Plano de Instabilidade e Retrocesso (PIR), segundo esclarecimento do governo, para ter aprovação garantida no hemiciclo, depois do executivo ter recebido ameaças muito claras de que tinha os dias contados.
Segundo apurei junto das minhas fontes inexauríveis, o governo até nem se importava de dar o fora quanto antes, desde que os seus sucessores não viessem com aquela do pântano e com a outra de que só tinham feito asneiras. Ora, sabemos que há quem sabe, que os membros do governo já usam galochas há muito tempo e que, quanto a asneiras, eles garantem que não fizeram metade daquelas que ouviram aos outros.
Mas, o PIR está cheio de novidades que lhe dão duzentos por cento de credibilidade, tanto interna como externa, mas a primeira é muito mais importante, porque é nela que a segunda se baseia para emitir as suas opiniões. Isto, apesar de toda a gente saber que em Portugal, no século vinte um, ninguém pode emitir opiniões. Desde logo, nem o governo.
O PIR já resolveu esse problema, até porque não custa muito dinheiro. Está lá previsto, com a consequente dotação orçamental, que todos aqueles que dizem que não podem falar, lhes seja dada gratuitamente uma chucha, para ver se deixam de fazer aquele berreiro que incomoda que se farta, com a condição de a utilizarem vinte e quatro horas por dia.
Outra novidade do PIR é a ligação de todos os computadores de jornalistas e comentaristas, em rede, à PT e ao BCP, por se reconhecer que são os dois maiores e melhores centros de purificação jornalística do país. Não é conhecida nenhuma reacção negativa a esta novidade, havendo até três ou quatro meios de comunicação que já bateram palmas à medida.
Reconhecendo o grande impacto que chegará à justiça via fax, O PIR determina e manda publicar que tudo o que ela ouviu no silêncio dos estúdios privativos, deverá ser entregue aos cuscos que estão fartos de bocejar, obrigando-os a gramar aquilo tudo de uma só vez, nem que demore uma semana a passar pelos ouvidos, mas sem comer nem beber, antes de acabarem a tão desejada tarefa.
O Plano tem duas grandes vertentes como o próprio nome indica. Acaba de vez com o velho conceito de que a estabilidade é que era boa. Nada mais estúpido, pois a instabilidade garante a verdadeira liberdade de agir, mas não fazer. Garante que não se pense mais nessa treta de que é preciso produzir, para ter. Assegura que se recebe sempre, venha lá ele de onde vier.  
A outra vertente substituída, o crescimento, é pura e simplesmente banida do PIR. Como já se viu, nunca crescemos como os altos suecos, ou como os pequenos chineses. Então, se não conseguimos crescer, há que mudar de política. Vamos para o retrocesso, ao menos esse, já o conhecemos de ginjeira e de há muitos anos.
Em boa verdade, o PIR tem todas as condições para ser aprovado por unanimidade e aclamação, assim ele seja lido de ponta a ponta, antes de ser discutido. Sim, que ele também lá tem uma alínea que proíbe terminantemente que alguém fale sem o ler, bem como uma outra alínea, que proíbe que o discuta, quem não souber ler.
Fartos de um PEC que só serviu para nos dividir, que venha o PIR para nos unir, dentro das modernas normas da discussão especialmente participada. O meu voto vai para o ‘pir'.