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afonsonunes

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Que não se pense que venho para aqui pedir que se deite abaixo a reacção, porque isso é uma coisa do passado muito distante. Aliás, toda a gente sabe que em Portugal só há um homem que está autorizado a deitar abaixo os meios que lhe não sirvam os fins. Por isso, ainda há quem diga que ele tem muita reacção dentro dele. Talvez por isso, ele seja único.
Cada vez percebo menos a razão porque ele, chefe do governo, não pode dizer nada, sem que lhe caiam em cima todos os virtuosos e virtuosas deste país, enquanto não se coíbem de lhe lançar diariamente umas coisitas, sempre as mesmas, porque pensam que ele disse ou fez isto e aquilo. Que, aliás, nem quero saber se fez ou não fez, quando olho para os outros.
Uma dessas coisitas diz respeito a uma suspeita de que ele mentiu. Bom, ele já mentiu muitas vezes, e vai voltar a mentir muitas mais, segundo esses puritanos. Isso só seria grave se todos esses puros acusadores, nunca tivessem mentido, em casa, na rua, no gabinete de trabalho, no partido ou na assembleia. Gostava de os ver jurar a pés juntos que não.
Cá por mim, não tinha dúvidas em dizer que ninguém deve cuspir para o ar. Como também não tenho dúvidas em afirmar que, sem querer armar em advogado de ninguém, também chego a um ponto em que não gosto de embarcar no rol da ignorância ou da má fé, no qual vejo estar a cair uma enorme nódoa de perseguição desleal e desonesta.
Não compreendo como se pode ser um renitente e continuado agressor verbal de alguém, quando depois, não só não aceita, como ainda se indigna, se esse visado lhe responder. Como se os argumentos de uns fossem sempre sagrados, enquanto os argumentos do outro fossem sempre diabólicos.
Divergências são divergências e eu sei as que tenho e em relação a quem as tenho. Mas não alinho em armar em juiz de ninguém e muito menos a antecipar-me ao trabalho que lhes compete. Não embarco nessa de dizer que os juízes são bestiais se decidem como eu gostaria, e são umas bestas se decidem como eu não gosto.
Suponho que sei guardar os meus gostos e desgostos para coisas bem mais pessoais e dentro da lógica daquilo que me diz respeito, incluindo aí a defesa dos meus direitos cívicos, mas sempre dentro do limite dos direitos dos outros. Não vejo outra maneira de ser coerente para comigo próprio e para com todos aqueles que conheço ou não conheço sequer.
Quando sai cá para fora uma notícia daquelas que chocam alguém, há de imediato a chamada reacção dos que têm a ver com a mesma e dos que se enfurecem ou se enchem de gozo com ela. Quantas vezes, na pressa de reagir, se dizem os maiores disparates, só porque não se deram à paciência de reflectir um pouco sobre o que aconteceu.
Um governante não pode dizer que há gente que não paga impostos, porque logo o obrigarão a concretizar quem é que não paga, ameaçando-o e rotulando-o dos mais terríveis crimes de ofensa à sociedade. Em contrapartida, qualquer responsável, do mais baixo ao mais alto de qualquer corporação ou associação, mesmo qualquer vulgar cidadão, pode dizer que o governante é um gatuno que lhe rouba o seu dinheiro.
Quase toda a comunicação social está numa fase em que só é notícia tudo que for contra o governo ou próximo dele, nem que seja dito por um qualquer ignorante ou malévolo ‘opinador’. Tudo o que for dito em favor do governo é simplesmente ignorado, ainda que seja dito por individualidades de relevo nacional e internacional, ou especialistas na matéria em causa.
No caso do primeiro-ministro é bem notório que andam uns tantos, muitos, claro, a ‘rabear’ à volta dele, mesmo que não tenham como ir além das suas suspeitas e das suas desconfianças. Se ele se defende, está a vitimizar-se, se ele se cala, está comprometido, se interpela alguém, está a ser arrogante. É caso para dizer como o anúncio. Que raio de democracia é esta.
Há quem pense que, só porque são muitos a dizer a mesma coisa, tem de ser verdade o que dizem, pois acrescentam que não há fumo sem fogo. Há quem diga que ele devia entender que não tem condições para continuar no cargo, por causa de tantas suspeições. Eu diria que, enquanto houver apenas fumo, ainda que muito fumo, o perigo é apenas a intoxicação.
Falem, falem todos, a solo ou em orquestra, mas deixem falar também aqueles de quem falais. Mesmo que eles mintam, mesmo que eles digam disparates. Estarão ao mesmo nível que vós. A verdade é que temos juízes de mais fora dos tribunais, enquanto lá dentro temos de menos.
Isto, na minha ideia, não é política nem é nada. É lama só comparável aos lamaçais das enxurradas que o país está a suportar. Porque quando se tem razão, fala-se direito e directo, não se anda sempre à volta do mesmo montinho, que não se sabe se é estrume, se é batata podre fora do lugar. 
É por isso que não vinha mal ao mundo se antes da reacção, viesse sempre um momento de reflexão.