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afonsonunes

afonsonunes

10 Mar, 2010

Mas queriam o quê?

 

Parece que toda a gente já estava à espera que viessem aí grandes sacrifícios, e o maior problema parece que residia apenas em saber se o governo seria capaz de ter coragem suficiente para tomar as medidas que se impunham. Não sou eu que vou afirmar se teve, ou não teve essa coragem, uma vez que não sei se isto lá vai assim.
Mas há uma coisa que eu sei e essa é aquilo que toda a gente estava à espera. Temos de pagar aquilo que muita gente andou a gastar sem o ter. Quando digo temos, quero dizer que devemos ser todos a pagar, mesmo aqueles que, como eu, não gastaram nada que não tivessem. Isto porque é óbvio que os culpados ou beneficiários por si só, não conseguiriam pagar todos os calotes que os credores exigem ao país.
Considerando que a sociedade se pode dividir em pobres, classe média e ricos, é fácil adivinhar quem vai aguentar com a factura maior. Os pobres, de um modo geral só recebem, e isso, no meu entender, muito bem, pois sempre defendi que tudo deve ser feito para lhes proporcionar os meios que satisfaçam um mínimo de qualidade vida.
Aliás, sempre ouvi defender esse princípio a quase toda a gente das outras classes socais, embora na hora de o concretizar, haja muita marcha atrás, em nome de uma obrigação do governo, qualquer governo, em assumir essa função. É verdade, pois cabe ao governo redistribuir aquilo que cobra dos contribuintes de todas as classes sociais.
Se é verdade que em Portugal há muitos pobres, também é verdade que há muito poucos ricos assumidos. Logo, não se pode ajudar os pobres apenas com o dinheiro dos ricos, coitados, a não ser que se pretenda que os ricos passem a ser pobres, depois de pagarem os impostos. Para mim, este é um exercício meramente brincalhão.
Mas, continuando com este raciocínio, resta a classe média que, pelos vistos, ainda é muito mais numerosa do que por vezes se pretende fazer crer. Portanto, por exclusão de partes, é à classe média que tem de se recorrer para tapar os buracos que, diga-se a talhe de foice, também tem grande responsabilidade por boa parte desses buracos.
Se cada um dos indivíduos que a compõem meter a mão na consciência, haverá uma boa porção deles que encontrará motivos para não se expor demasiado, em tantas manifestações de desagrado, do tipo de quem está a ser roubado escandalosamente quando, repito, em certas circunstâncias, se alguém andou, e ainda anda a roubar…
Pois, eu sei que muita gente está a pensar no estado e em muitas roubalheiras que por lá vão. Mas, na hora do toque a rebate, o estado já lá não tem o produto dos roubos, nem isso chegaria para pagar o que se deve. Como os governantes não são o estado, senão e apenas seus representantes, o estado são os pobres, a classe média e os ricos.
Voltando ao princípio, se os pobres só recebem, se os ricos não podem ficar pobres, sobra a classe média para desenrascar a situação. Com toda a naturalidade, digo eu, porque há muita gente na classe média que faz vida de rica. Podendo ou não fazê-la, o que é certo é que quem faz de conta que é o que não é, então que pague como gosta de ser e como tanto gosta de mostrar que é.
Aliás, a atitude dos ricos é muito mais coerente do que a da classe média. Alguns ricos, como dizia um deles há tempos, são ricos mas fazem vida de pobres, ao contrário da classe média. E não custa até acreditar que também há pobres que fazem vida de ricos. Vá lá perceber todas estas contradições de uma sociedade moralmente injusta.
Mas, a grande verdade, é que ninguém está verdadeiramente interessado em que se corrijam as evidentes injustiças que temos na frente dos olhos. São os governos que não querem, ou não os deixam, mas são também todos os cidadãos bem instalados, e são muitos, de todas as classes sociais, que tudo fazem para que nada mude.
Depois, para tapar o sol com a peneira, anda por aí tudo num reboliço de polémicas com assinaturas, agora, já mais que reconhecidas. Quem não os conhecer que os compre.