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afonsonunes

afonsonunes

12 Mar, 2010

A 'boyada'

 

Como sou muito criativo desde os tempos em que tinha o mau hábito de jogar à bola, volta não volta lá estou eu a criar situações e palavras que ainda ninguém tinha tido a virtude de descobrir, talvez porque andem muito atarefados a tentar descobrir outras coisas que, a mim, nem me passariam pela cabeça, se não as ouvisse tão repetidamente.
A minha criatividade deu-me hoje para inventar a boyada, que é uma coisa em que todos falam, como se todos os outros estivessem lá metidos, mas que ficamos todos indignados, mais, ultra ofendidos, se nos acusarem, ou a alguém das nossas intimidades, de pertencerem também a essa grande boyada nacional.
Ainda não aprendi que não devemos andar com estes estrangeirismos que só servem para irmos esquecendo os termos muito nossos e tanto ou mais expressivos que os dos outros. É certo que a boyada nem sequer ainda foi inventada no estrangeiro, até porque é uma mistura, concordo que é uma má mistura, de boy com a portuguesíssima ada, outro produto da minha infindável criatividade.
Esta grande descoberta ocorreu-me depois de ter associado a nossa letra ‘i’ ao ‘y’ dos camones, quando me debruçava sobre o significado da também nossa, boiada. Daí que tivesse desde logo o impulso de pensar que os boys deles, eram os nossos bois. Como tenho ideias muito puras e sentimentos de muito altruísmo, vi logo que não podia ser.
E muito menos podia ser, quando me apercebi que por cá também temos boys, embora os camones não tenham bois, vá lá saber-se porquê. Eu sei, mas faz de conta, adiante. A verdade, porém, é que, por cá, ninguém quer ser boy, talvez porque estejam a cair na minha confusão inicial, depreendendo-se que também não queiram ser tratados como bois.
 Ainda admito que aquelas pessoas com menos instrução, caso dos tratadores dos bois, tenham alguma dificuldade em lidar com estas aparentes semelhanças entre boys e bois, ou entre boyada e boiada. Sim, porque eles sabem tudo sobre os bois, mas não sabem nada sobre os boys logo, não perdem tempo à procura das diferenças e das semelhanças.
Contudo, eu, que não trato de bois nem de boys, que já me apercebi de algumas semelhanças, como por exemplo, a prerrogativa de marrarem uns com os outros, quando toca a caracterizarem-se em comum, confesso que lamento profundamente que, com cabeças tão desiguais, mas com culturas muito semelhantes, se confrontem tão estupidamente.
Mas, se julgarem que isso lhes limpa a honra, aqueles que a tiverem, claro, deixo aqui mais uma criatividade que muito contribuirá para que boys e bois se enfrentem em local perfeitamente adequado, com todas as condições de luta, tanto para eles como para os aficionados dessas lides.
Como a arte dos bons cavaleiros e dos bons mestres das pegas está com alguns problemas com os defensores dos direitos dos animais, as arenas estão a ficar com uma utilização abaixo do que era. Então, poderiam libertá-las nos dias de trabalho, de segunda a sexta, para que os boys e os bois se defrontassem com toda a energia e coragem que os caracterizam, enquanto os sábados e domingos ficariam disponíveis para as chocas e seus acompanhantes.
Parece-me que talvez não fosse descabido fazer-se uma discussão séria desta matéria, de forma que ela tomasse a legalidade que é justo que ela tenha. Como é óbvio, essa discussão só pode tomar assento na sede da democracia, local da imparcialidade total, onde se sabe que não há boys nem bois, garantia de que ali não haverá nunca, uma coisa que se chama tourada.
Muito menos qualquer indício de uma pega de caras, de uma boiada, ou de uma boyada. Nem pensar.