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afonsonunes

afonsonunes

14 Mar, 2010

Gaba-te cesta...

 

…que hás-de ir à vindima. Isto se houver um certo cuidado na escolha da data da vindima que, a ser tardia, torna-se inoportuna, podendo resultar numa missão completamente inútil, semelhante à daquele cão que passou pela vinha, depois de ela ter sido vindimada por outros.
A cesta que muito se gaba das uvas que recolheu ou vai recolher, pode ficar vazia como a barriga do cão, pois já os meus antepassados diziam que coisa gabada é coisa borrada, e eles lá sabiam do que falavam. Para mais, nessa altura, ainda eles não pensavam que os gabanços, as vinhas, as vindimas e os cães, haviam de vir a ter tanta relação com a política.
Hoje, porém, toda a gente nota que os outros se gabam muito mas não fazem nada, mas os outros também já repararam que aquilo de que os acusam é praticado, a toda a hora, pelos seus acusadores. Sim, isto dito desta maneira, é uma confusão danada, mas eu pergunto se alguém acha que não vivemos no meio de inúmeras confusões danadas.
A mim, que sou esquisito para caraças, parece-me que num país de gente séria e honrada, graças a Deus, parece-me, repito, que é um disparate e um abuso alguém estar a afirmar, a reafirmar e a continuar a reafirmar a toda a hora, que é um homem sério e que os portugueses sabem muito bem que ele é mesmo sério.
Oh pá, então e os outros? Eu, por exemplo. Também terei de andar a dizer por aí em todo o lado que sou sério? Então eu, tal como os outros portugueses, teremos todos, de andar todos os dias e a todas as horas, a dizer em coro que somos tão sérios como ele? Ou, se não dissermos nada, será que nenhum de nós é sério?
Ora gaita para estas considerações, têm razão, mas não deixo de pensar no gabanço da cesta que há-de ir à vindima, no dia em que se vão vindimar os votos, na grande vinha que é o país. País cheio de dúvidas e de incertezas que eu não posso esclarecer, mas que sempre digo que eu, falando sempre verdade, sou o único em quem se pode acreditar. E não posso dizer mais nada. Aliás, bem me parece que já falei demais.
Mas, há outra cesta, feita pelo mesmo cesteiro, com a mesma verga, mas com um número abaixo no tamanho, todavia igualmente garantida quanto à qualidade, já comprovada em vindima legítima, onde teve o azar de ter chegado um pouco tarde, após a passagem de outros vindimadores que pouco lá deixaram para ela.
Apesar disso, esta meia cesta, pouco mais de meia no seu conteúdo interior, garantiu que já foi muito bom o resultado da sua vindima, acima do objectivo delineado, pois a vinha havia sido vandalizada pelo cão que passou antes dela, comendo as melhores e a maior quantidade de uvas e, pior ainda, deixando a vinha em estado lastimável.
É uma missão muito ingrata, esta de estar a falar de vindimadores de votos, principalmente, quando se misturam animais domésticos com pessoas que às vezes parecem selvagens, especialmente, quando pretendem meter o seu passado no presente dos outros.
É muito difícil avaliar o grau de destruição da vinha, pensando apenas no seu estado actual, deixando de fora a avaliação dos estragos provocados ao longo de muitos anos. É que não foram apenas os animais domésticos a danificá-la e apenas num só ano.
A vinha já resiste há muitos anos, às atrocidades de toda a ordem, mesmo as que lhe foram infligidas pelas cestinhas de mão, de toda a espécie de predadores selvagens.
Portanto, quando me lembro das cestas que se gabam que são as melhores do mundo, lembro-me logo das maiores borradas.