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afonsonunes

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 Há muito tempo que eu desconfiava que devia haver por ali uma liberdade qualquer, que não existia em nenhum outro partido. Tinha quase a certeza disso mas, com tantas vozes com o volume no máximo a contradizer-me, não tive outro remédio senão ir-me conformando com tantas dúvidas reprimidas no fundo da garganta a rebentar pelas costuras.
Num partido com a liberdade de levantar dúvidas sobre toda e qualquer liberdade de expressão, sobre toda e qualquer liberdade de compressão, de impressão, de retaliação, de indignação, de reprovação, de má educação, de contra informação e de invenção, não fazia sentido que não houvesse só mais uma liberdade, a liberdade de supressão.
É que essa tem a prerrogativa essencial e necessária a qualquer liberdade que muito dignifica quem adora submeter-se a todas as liberdades. Não só submeter-se, mas intrometer-se em todas as liberdades, suprimindo a voz de quem não aceite a liberdade de se manter calado perante a voz inatacável do chefe do partido.
É a liberdade de supressão do direito à claustrofobia demográfica, tornando assim esse partido num pilar de verticalidade suprimida, de rolha roída, de palavra contida, de opinião oprimida, de vontade reprimida e de democracia escondida. Pior que isso, só o que se passa com quem se atreve a passar pelo Largo do Rato, onde os supressores de agora, já condenavam há muito tempo, o rato que roía a rolha da garrafa.
Temos assim que, a partir de agora, com a liberdade de supressão, o tal partido deixa de ter o argumento de que não há liberdade de expressão, permitindo ao controlador dessas coisas, ficar liberto de qualquer obrigação de respeitar a falta de toda e qualquer liberdade. É que a liberdade é como o sol que, quando nasce, é para todos. Mas quando se põe, também é para que todos fechem os olhos e vão dormir descansadinhos.  
Não precisam de pedir desculpa a ninguém, mas podem recuar à vontadinha na trabalheira que poupam aos deputados e ao pessoal da assembleia, assim como ao país em termos de massinhas, se fizerem uma supressão da liberdade de desconfiança, com a qual se elevaria muito, o nível de supressão de bagunças e de invasões de outras instâncias, igualmente em risco de algumas supressões, por indecente e má figura.    
Fica agora provado e mais que provado, confirmado e reconfirmado que, por maioria não absoluta, foi considerado que a supressão da liberdade é muito mais importante que a liberdade de expressão, tão vilmente execrada e atacada nos seus fundamentos infundados, pelos fundadores deste novo conceito de suprimir agora, aquilo que tanto adoravam ainda há bem poucos dias.
Podem crer que eu não estou muito preocupado com as supressões e as suas liberdades, visto que já estou habituado a suprimir muitas das deambulações do meu pensamento, ainda muito mais irrequieto e revolucionário que o daqueles supressores de última hora. Portanto, antes de eles começarem a suprimir, já eu suprimia muita coisa a mim próprio. E que coisas.
Apesar de não concordar, nem aceitar, nem querer as supressões que os outros querem, até nem me importava de ser eu a determinar umas tantas supressões, que calhavam bem com a maneira como eu vejo certas coisas, que ninguém é capaz de suprimir. Só que me falta a liberdade para a acção.
Ainda hei-de pedir a este partido da supressão da liberdade, ou a outro qualquer, que me arranje lá essa liberdade, que eu depois trato do resto. Havia de ser bonito.