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afonsonunes

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Até no tempo da ditadura a oposição, registe-se que clandestina, era bem mais coerente e digna do que é hoje, apesar de estar sujeita a levar nas orelhas quando os seus membros eram identificados. Nessa altura queixavam-se menos e sofriam bem mais, enquanto agora se queixam demais sem que nada lhes tenha acontecido de mal.
Naquela altura não podiam falar mas entendiam-se bem, mesmo para lá das escuras celas onde a única droga que lá entrava eram os instrumentos de tortura levados pelos guardas que não tinham partido, mas partiam tudo aos reclusos com as suas atrocidades. Hoje, a oposição queixa-se de falta de tudo, mas só pode queixar-se das suas insuficiências e da falta de se fazer acreditar.
Já não há a mínima preocupação de tentar mostrar que se fala com argumentos aceitáveis e minimamente credíveis, atirando-se para o ar um sem número de atoardas que só as pessoas realmente apanhadas pela cegueira da partidarite aguda, ou da simpatia elevada ao expoente máximo da doença, podem aceitar sem um sorriso amargo de desânimo.
Pelo contrário, quanto maior for a bernarda, mais gozo ela provoca nos seus entusiastas, como se estivessem convictos de que é assim que se ganham simpatias e é assim que se ganham batalhas eleitorais, como se todos os eleitores alinhassem nessa parvoíce igual ao gozo de bater com as cabeças nas paredes.
É sabido que todas as parvoíces provocam rombos, nomeadamente nas cabeças, mesmo quando se pensa que elas são mais duras do que as ideias que têm dentro delas. Normalmente, não é por essa via que se fazem conquistas, mas é por aí que se constroem grandes derrotas que, depois delas, obrigam a levar as mãos à cabeça.
A oposição sabe que precisa de tirar votos a quem ganhou anteriormente, mas nunca lhos tirará através de campanhas dúbias ou, pior ainda, de campanhas que se vão desmascarando a si próprias, devido à insustentabilidade das teses que morrem com o tempo, por assentarem em bases mais movediças que as areias do deserto.
Para roubar votos a quem está à frente, são precisas ideias claras e argumentos facilmente compreendidos, porque os votantes não são tão inteligentes que entendam as burrices que lhes querem impingir, nem são tão cegos que não distingam as mentiras e as verdades de quem têm na frente dos olhos, tão pouco são tão estúpidos quanto os julgam, ao não entenderem nada do que lhes dizem.
É por isso que me parece que temos a pior oposição de sempre. Porque a oposição também precisa de ter valores e projectos sérios que consiga impor pela sua validade e racionalidade, em lugar de se dedicar quase exclusivamente à má-língua e à procura de cantinhos onde se possa misturar e conviver com quem sabe que nunca se dará bem.
Antes das eleições os partidos acusam-se mutuamente de estarem a preparar alianças estranhas e contranatura. Depois das eleições, vemos como os acusadores se aliam a quem não gostavam que outros se aliassem. É uma roda livre de insensatez e de contradições, que só serve para fortalecer o poder, por mais fraco que ele seja.
Se a oposição é a pior de sempre no que respeita aos seus próprios interesses, já o mesmo não se poderá dizer em relação aos interesses de quem é atacado. Nunca o poder se manteve tão pouco desgastado ao longo de tanto tempo, ao contrário do que dizem os seus opositores, sequiosos de que os seus dislates produzam efeitos.
E isso não se deve às virtudes do poder que, em muitos aspectos, está longe de ter a simpatia de muitos cidadãos, em relação a determinadas medidas que toma. Mas recebe muita simpatia por estar permanentemente a ser atacado com argumentos que não convencem, beneficiando da antipatia que esses argumentos acumulam nos seus autores.
Esta oposição tem de convencer-se que não basta gritar – agarra que é ladrão! ... – É preciso que saiba primeiro o que é que foi roubado. Senão, não é tão cedo que vai roubar votos a quem já os ganhou antes.