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afonsonunes

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Ainda não há mas lá chegará o tempo em que algumas das muitas lojas de artigos chineses instaladas em Portugal, nos apresentem como novidade, um tipo de piloto chinês, que ainda não sei bem como será mas, com toda a certeza, vai ser muito diferente dos pilotos portugueses, que tantas dores de cabeça estão a dar a tanta gente.

O meu raciocínio vai na sentido de que não é difícil encontrarmos de tudo nessas lojas ao preço da chuva. Dir-me-ão que deve ser ao preço da chuva de inverno, quando ela é demais e não serve para nada, senão para estragar muita coisa. É verdade, mas há quem goste. Da chuva, de qualquer chuva, como de qualquer coisa das lojas dos chineses.

No dia em que cheguem cá os pilotos chineses aposto que lhes vão logo perguntar quanto tempo é que eles estão dispostos a voar para receberem o valor de um ordenado mensal de um piloto português. A pergunta tem toda a oportunidade, pois sabemos que em diversas profissões, só falta que os chineses paguem para trabalhar.

Já estou a imaginar a resposta do piloto chinês. Depois de fazer umas contas de cabeça por causa das despesas de dormida e de uns trocos para a comida, sabendo já que a farda é de borla, o piloto, como que num desabafo, disse muito claramente que trabalhava um ano inteiro, doze meses, salientou, recebendo o valor do tal ordenado mensal do piloto português.

Depois de uma pausa um tanto intrigante, o piloto chinês ainda acrescentaria, com um sorriso de orelha a orelha, que nesse custo estava incluído o avião, que ele também mandaria vir da China. Por mim, não vou fazer qualquer comentário sobre a proposta, porque não conheço o piloto e muito menos o avião chinês que ele se prontificava a fornecer.

Mas, vale a pena reflectir um pouco sobre esta matéria. Os pilotos portugueses estariam contra, provavelmente, porque diriam que, avião chinês, com piloto chinês e combustível nacional, seria ruinoso para a nossa economia, acrescentando que o negócio só seria susceptível de aceitação, se o piloto chinês também fornecesse a gasosa.

O sindicato dos pilotos diria de imediato que nem pensar, com combustível ou sem ele, uma vez que o piloto chinês não estava sindicalizado em Portugal, nem nunca seria aceite a sua admissão, pois não era sério que o piloto chinês trabalhasse doze meses, sem um mês de férias, sem subsídio de férias e sem décimo terceiro mês.       

Por outro lado, as centrais sindicais opor-se-iam terminantemente à vinda de pilotos chineses, que mais não fosse, porque isso provocaria, quase de certeza, uma redução de postos de trabalho nacional em favor de estrangeiros, com a consequente perda de poder de compra dos pilotos portugueses que, dessa maneira, veriam desrespeitado o princípio de que não poderiam perder direitos adquiridos.

O povo português, de um modo geral, ficaria revoltado, alegando que, se proibiam a vinda de pilotos chineses, muito mais baratos que os nossos, qualquer dia começavam a cortar nos artigos das lojas dos chineses, por causa dos produtos portugueses.

Mas, quem mais se indignaria era a classe comercial que, na falta de produto de fabrico nacional, vai aos chineses abastecer-se para não ter de fechar a porta da loja. Porque dizem que só não fecham mesmo, para ajudar a equilibrar o défice do falatório nacional, tão discutido e tão comentado nas suas lojinhas de convívio social.

O estado já deixou bem claro que defende tudo o que é caro, mesmo muito caro, aos bolsos dos portugueses. Portanto, pilotos chineses só em último recurso, como seria o caso de os aviões portugueses ficarem todos avariados, ou os pilotos portugueses começarem também a variar. Aí, sem dúvida, pilotos chineses, com aviões chineses.

Neste caso, o estado contaria com a compreensão, e até o aplauso de toda a sociedade civil, nestes conflitos em que o mais importante nem é o dinheiro. O estado não liga a essas coisas. Também, alguma vez, a sociedade civil, havia de estar do lado do estado.