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afonsonunes

afonsonunes

26 Mar, 2010

Parabéns, tia!

Sim, parabéns, pois hoje não é um dia qualquer na vida da tia, essencialmente por dois motivos. O primeiro diz-me que ontem, a tia se deitou muito mais tarde que o costume, e o segundo que hoje, também se levantou muitíssimo mais tarde que o costume. Parece que isto não é motivo para tanta festa, mas é mesmo.

Olhe, tia, acredite que tenho cá as minhas dúvidas sobre o que vai fazer hoje, depois de se ter certificado de que, lá fora, não tem o motorista à espera, nem tem aquela horrorosa estopada de ir dar despacho ao expediente e responder, melhor, reagir, às parvoíces do costume.

De repente, até pode resolver ir dar uma voltinha pelo jardim, tentando apanhar aqueles raios de sol que espreitam sorrateiramente pela janela. Como se esperassem ver alguma coisa de jeito para lá dos cortinados e das persianas corridas, que não tardariam a abrir-se de par em par, pois até a caminha já estava feita.

O pequeno-almoço também estava quase despachado, apesar de ter sido um pouco mais substancial que o costume, logicamente, porque não tinha o motorista à espera, apesar de ele nunca ter tido o mau hábito de buzinar como meio de chamamento. Contra o costume, até o telemóvel ainda não tinha dado sinal de ter acordado para a rotina, que hoje já não era a do costume.

Apesar de tudo isso, a tia estava muito mais bem-disposta do que era costume. Só tinha uma pequena dúvida a ensombrar-lhe o pensamento. Ainda não sabia o que havia de colocar na sua agenda do dia, ao contrário do que era costume, pois a esta hora do dia já estava cheia e em plena evolução.

Ao pegar nela e na caneta fina, com um misto de alívio e de sensação de um vazio interior, respirou fundo e passou um traço vertical na página do dia. Pronto, o problema da agenda estava resolvido e, cumulativamente, lá se ia o problema de ter de reagir às mentiras do dia. Sim, porque a tia há muito que não reagia a uma verdade sequer.

Porquê? Pela simples razão de que a tia já estava habituada a ouvir apenas mentiras. Daí que já tivesse feito um teste médico para verificar se não estaria, também ela, contaminada com o mesmo mal, devido ao perigoso efeito de contágio directo. Felizmente para ela, o teste deu negativo e o médico garantiu-lhe que estivesse calma e serena, que aquilo não era nada.

Agora, a tia estava mesmo preparada para enfrentar o primeiro dia sem agenda. Uma vez chegada à porta de saída, levantou a cabeça e olhou à sua volta, como se escolhesse a rua que devia percorrer calmamente, a pé, decidindo-se pela que tinha o comércio mais chique, na esperança de que até encontrasse alguma loja com saldos extemporâneos.

Duas horas mais tarde, já um tanto exausta, passava em frente do Palácio de S. Bento. Sem saber porquê, sentiu um arrepio de frio que lhe percorreu a espinha toda. Não era costume ter arrepios daqueles, mas logo pensou que os seus costumes estavam mesmo a mudar.

Estava a tia nesse adiantado estado de melancolia quando alguém lhe tocou no ombro e a convidou a retomar a marcha, lembrando-lhe que águas passadas não movem moinhos. Ela apressou-se a perguntar ao seu interlocutor, se já estava a pensar em mudar-se para ali.

A resposta não se fez esperar, informando que vinha precisamente a tirar as medidas ao palácio, já que acabava de chegar à conclusão de que não podia perder nem mais um dia na situação em que ela esteve durante tanto tempo.

A tia olhou para ele, viu as olheiras que ele ainda tinha dos festejos da noite anterior e, deliberadamente, sorriu. Não se sabe o que, para ela, significava esse sorriso. Mas ele, bem ou mal, achou que ela estava feliz por ele.  

Parabéns, tia. Hoje, já só ouve mentiras se quiser. No entanto, tem o privilégio de ler hoje, aqui, contra o costume, a sua vidinha de amanhã.