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afonsonunes

afonsonunes

27 Mar, 2010

Às escuras, hoje?

Era só o que faltava, apesar de se perder apenas cerca de metade do jogo da Luz, o que é, curiosamente, revelador de que há quem queira, a qualquer preço, que a Luz fique às escuras. Quer dizer que alguém inventou esta história de deixar o país às escuras, precisamente neste dia e a esta hora.

Lá que exigissem que o túnel da Luz ficasse às escuras, bom, isso eu até entenderia perfeitamente, já que da outra vez houve uns xicos espertos que nem sequer repararam que as luzes estavam acesas e desataram a dar, sem olhar para as câmaras, nem para os desgraçados que apanharam.

Considero que isso foi a traição da luz, imperdoável para quem sabia que isso teria consequências monetárias e desportivas irrecuperáveis, a menos que o homem da Luz, dentro da sua incomensurável benemerência, se prontifique a pagar todos os prejuízos monetários e, muito mais importante, entregar o título numa bandeja de prata ao clube dos heróis agressores. Isto se houver título para pôr na bandeja. Se não houver, vai só a bandeja.

Mas, voltemos ao dia de hoje, em que o túnel da Luz deve ficar às escuras, para proporcionar o espectáculo complementar, muito mais animado e entusiástico que o do relvado, que até pode nem ser lá grande coisa. Se houver sarrafada no relvado, espera-se sopa no túnel. Se houver sopa no relvado, então no túnel vai servir-se a sobremesa. Mas, por favor, tudo com as luzes apagadas, senão não tem piada nenhuma.

Mas isto é na Luz. E na política? Então o homem tem a oportunidade de fazer hoje à noite o seu primeiro serão de trabalho, sentado no cadeirão do seu gabinete, pela primeira vez, repito, pela primeira vez, depois de toda a animação que tem vivido cá fora, e querem que ele apague a luz antes de entrar? É caso para dizer, não brinquem com o homem, até porque ele não pode perder um segundo sequer de trabalho, quanto mais uma hora.

É claro que ele até tem uma alternativa muito válida. Em lugar de jantar mais cedo, com as luzes acesas, e ir fazer serão com as luzes apagadas, basta-lhe trocar. Começa o serão ao pôr-do-sol e, às horas em que vão apagar as luzes, vai jantar romanticamente à luz das velas, com quem mais desejar neste final do primeiro dia, fazendo tudo pela primeira vez.

Dada a solenidade do dia e a necessidade de abreviar tudo o que tem de ser feito sem demoras, para não correr o risco de se esquecer que tem de as fazer, parecia-me bem que ele convidasse para este jantar de hoje, das oito e meia às nove e meia, com a mesa cheia de velas, mesmo apagadas, aquele que vai ter a sina de lhe deixar outro cadeirão vago, noutro gabinete, noutro palácio, que já espera por ele há muito tempo.  

Neste jantar que podia ser histórico, podia aproveitar para combinar a melhor maneira de fazer as coisas sem que ninguém as veja, dada a experiência do seu convidado e dada a inexperiência do anfitrião em matérias tão melindrosas e tão poderosas, que só o seu convidado, à luz de velas, ou às escuras, lhe pode iluminar a mente.  

De qualquer modo, registo aqui e agora, que alguém, maliciosamente, engendrou esta maquinação da hora sem luz, com perfeita consciência do que fazia, pois não pode ser uma ingénua coincidência, a escolha da hora no jogo da Luz e, com muito mais maldade ainda, a hora do serão, ou do jantar, do homem que vai fazer tudo pela primeira vez.

É por isso que há o perigo de tudo começar com as velas apagadas. Às escuras, por maldição de alguém que não gosta da luz.