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afonsonunes

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02 Abr, 2010

Goleadas

Há coisas que, para quem anda a par da nossa actualidade velha e relha de todos os dias, só podiam acontecer no futebol e na política, sempre tão de mãos dadas e de couros nos pés, iguais aos couros que rolam na relva. Isto para não falar nos couros das luvas que mantêm limpas muitas das mãos que andaram a mexer na coisa.

Podemos começar a bater a bola, que dantes era mesmo de couro legítimo. Até uma semana atrás, havia uma aliança perversa entre o Porto e o Braga para que o Benfica escorregasse. Objectivo fácil de identificar. Retirar a este a liderança porque, depois, os outros dois lá se entenderiam com o que fazer entre eles.

Mas, como as coisas saíram furadas, o Porto viu renascer a esperança de ser segundo, e viu morrer a esperança de chegar aos calcanhares do Benfica. Aí parou. Era preciso mudar de estratégia e passar a tentar chegar aos calcanhares do Braga.

E aí os temos agora, a olhar desconfiados um para o outro, de tão amigos e solidários que eram, roídos agora pela força dos interesses que o facto de vir a ser segundo lhes proporciona, embora o Braga ainda possa alimentar alguma esperança de vir a ser primeiro. Mas, nesse caso, o Porto já estaria a ver o segundo lugar por um canudo.

Seria caso para perguntar ao Porto se neste momento não estará mesmo a rezar às escondidas para que todos os santinhos ajudem a cair o Braga, para o poder ultrapassar. O mesmo será dizer que o Porto quer que o Benfica seja mesmo o vencedor da Liga. E o Braga que vá à vida, pois a vida é assim mesmo, isto para não dizer que alguém vá abaixo de Braga, ou fique a ver Braga por um canudo. Mas, adiante, que a conversa é o roubo do tempo, como o azeite é o roubo dos grelos.

Entretanto, também se tem falado muito de goleadas desde o princípio da época, chegando mesmo a considerar-se uns magros dois ou três a um, como goleadas históricas, com golos sobrenaturais, ou do outro mundo, de jogadores incríveis e mágicos. Como se alguém fosse lá ver como são os golos do outro mundo.

Cá para mim, uma goleada é quando se leva ou se dá cinco ou mais sem resposta, assim como quem vai de caminho. Sim, porque dar ou levar três ou quatro, é assim uma coisa que não é carne nem peixe. É vulgar, principalmente, para quem os dá, sobretudo se forem dados de boa vontade e se quem os leva, responder com uma goleada de asneiras, daquelas de pôr a boca ao lado. Sim, isto é que é incrível e próprio deste nosso mundo, incrivelmente chato.

Eu diria que quem está incrível é o português de alguns goleadores da escrita e da palavra, que já não prescindem de meter a língua onde nem uma esferográfica cabe. Lembro que as esferográficas têm tamanhos e feitios muito desiguais, enquanto as línguas, com o novo acordo, estão a aproximar-se cada vez mais umas das outras, principalmente, na textura, de onde verte a salivação.  

A última goleada deu-se exactamente com a língua, à qual também chamam badalo, ao que dizem, permitindo à RTP bater a SIC, por não sei quantas badaladas em tom de falsete. Para o caso, nem interessa se as badaladas eram boas ou falsas. O que interessa é o número delas e a língua de palmo com que foram dadas.

Mas, para alguns bons intérpretes desta cancha pelada, tudo serve para contrapor às goleadas a sério dadas pelos outros, pretendendo assim compensar as frustrações que lhes vão na alma. Lá inventam umas goleadas de rancor e de insinuações, de mentiras e de hipocrisias, a que muitos acrescentam o seu desvalorizado valor.

Não vêem eles mas vejo eu, umas goleadas nos túneis, onde os heróis incríveis são aqueles que dão, e os horrorosos vencidos são os que apanham, ou simplesmente nada viram. E felizes, muito felizes, são todos aqueles que, perante o espectáculo incrível, estão ao lado, muito solidários, dos heróicos lutadores dos túneis.

Ah grandes amigos da bola, grandes amigos do espectáculo, grandes desportistas, isentos comentadores e incuráveis doentes ou insanáveis desinteressados. Continuem a incensar os vossos heróis da traulitada e, se tanto gostais, entrai no jogo deles, não só com as palavras de incentivo do costume, mas com as armas dos trauliteiros, para maior dignificação do espectáculo. 

Vós bem sabeis que tudo o que é traulitada tem consumo assegurado. É que, traulitada, já significa goleada de simpatia.