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afonsonunes

afonsonunes

06 Abr, 2010

Mexia e ainda mexe

Mal vai o homem quando já não se pode mexer por estar metido entre coisas que o sufocam e lhe abafam os movimentos em qualquer direcção. Ainda que entre essas coisas estejam o vil papel que lhe depositam à volta, treze ou catorze vezes ao ano, mais as emanações extraordinárias que, de tão frequentes, passaram a ser verdadeiramente ordinárias.

Fala-se muito do homem que mexia, ainda mexe e vai continuar a mexer em milhões como eu mexo em cêntimos. Para ele está tudo bem, mas para mim está tudo mal, não porque eu também quisesse mexer em milhões, embora não me importasse nada de mexer em mais uns milhares por ano.

Para mim, que não ando por aí a chamar ladrões a tudo quanto ganha mais que eu, é uma questão de saber mexer com a consciência. Sobretudo com a consciência colectiva de um povo que se habituou a ir lá fora buscar o que outros povos produziam, para o entregar cá aos reis e à burguesia, que era quem mexia na massa.

Portanto, já nos primórdios da civilização, o povo nunca mexia naquilo que sabia que não era para ele. Daí que ainda hoje, se descobrimos alguém que mexia mesmo, parece que cai o Carmo e a Trindade, como se os mexias fossem exemplares raros como os árbitros sérios ou os políticos isentos.

De estranho em tudo isto é que, mexias, são uma casta de mexilhões que se engordam uns aos outros, sob o olhar estupefacto dos seus admiradores que se sentem felizes por ainda haver no seu mundo de miséria, quem viva a mexer em milhões o que, sinceramente, terá levado muito pouca gente a pensar nisso a sério. 

Porque, lá dizem os brasileiros, que o povo miserável adora ver o fausto das telenovelas, onde tudo parece feito para satisfazer o sonho de quem sabe que aquele mundo não é, nem nunca será o seu mas, pelo menos, sabe que ele existe e sabe quem vive nele. E o povo fica mesmo feliz, porque já viu como é.

É caso para dizer que vias, mas não mexias, pois basta que alguém se sinta feliz a contar os mexias dos prós e dos contras, não das segundas-feiras, mas do dia-a-dia das lutas dos que mexem directamente no país e dos que mexem indirectamente, como quem diz, se tu comes eu também quero, senão, mais logo, na hora de mudar, dou-te o troco.

Portanto, não vale a pena andarem por aí uns amigos dos mexias que estão por dentro, a armarem em inofensivos mexilhões e, muito menos ainda, aos mexias que agora estão de fora, fazerem crer que nunca mexeram em nadinha daquilo que estão sempre a imaginar nos bolsos dos outros.

Como se vai vendo a cada dia que passa há mexias por todo o lado, como bem reveladora se tem mostrado a contra informação que vem de fora, logo abafada pela dita informação de reposições, que mais não faz que pretender esconder os seus mexias, procurando até à exaustão, impor as suas teorias de descobertas de mexilhões, ainda antes de molhar os pés a tirá-los das rochas. 

Este é um país de contradições e, para muitos mexias mais afeitos ao folclore, é também um país de contradanças, onde os que mexem no pífaro, raramente ouvem o som abafado do sapateado dos que mexem enquanto dançam.

Mexer não é proibido, desde que se não esconda aquilo em que se mexe, até porque trabalhar é mexer. Mas, cuidado com quem mexia e mexe nas nossas algibeiras. E muito cuidadinho também com aqueles que passam a vida a esconder e a mostrar mexias.