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afonsonunes

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Diz o povo que cada um é para o que nasce, mas eu não acredito mesmo nada nessa história e os exemplos de que me vou apercebendo à medida que olho para quem me rodeia, mostra-me que tenho razão. E tanto assim é, que já vi meninos que nasceram de braços caídos e assim que os puseram no berço logo fizeram um ‘manguito-zinho’ para deixar bem claro que o destino deles era passar de imediato para o colinho da mamã.

Podem dizer que se tratava de meninos superdotados, e até podiam ser, mas eles lá sabem para o que nasceram e não deram sequer tempo a que os enganassem logo nos primeiros minutos de presença neste mundo de enganos.

É claro que esses devem ser alguns dos homens de hoje, fortes, tesos e destemidos, que não recuam ao menor sinal de ameaças de quem cresceu demasiado tempo com a chucha na boca, daí resultando o mau hábito de, ainda hoje, berrarem num desatino sempre que se esquecem de tirar a dita do bolso para a boquinha.

Lá está. Cada um é para o que nasce, se nascer de uma mamã que, durante o parto, já tenha a chucha na mão para a enfiar na boca do berrante, logo que ela seja visível à saída do túnel onde a vida começa. Se a mamã preferir ouvir os berros que até dizem que fazem bem, então teremos um não berrante anti-chucha para toda a vida.

Movido pela curiosidade destes e de outros fenómenos desta área, efectuei um estudo importantíssimo que me revelou os efeitos benéficos, mas também os perversos, das inclinações ou tendências detectadas no acto do nascimento, bem como as ocupações actuais de algumas figuras gradas do nosso meio chique.

Toda a gente sabe que o nosso maior professor, orgulho de cerca de cinquenta e um por cento de todos nós, nasceu para ser isso mesmo: professor. Grande professor, aliás, pois cada um é para o que nasce. Porém, um dia, entendeu que devia fazer uma viagem de fim-de-semana, durante a qual resolveu mudar de vida, seduzido pelas luzes e pela ribalta.

Afinal, com períodos altos e baixos, até com um outro período em que as luzes se mantiveram mesmo apagadas por uns anos, lá descobriu o interruptor mas, dizem que é o destino, cada um é para o que nasce. E ele nasceu para ser professor, embora tenha agora, ainda mais luzes e mais ribalta. Mas, em boa verdade, não nasceu para isto.

Toda a gente sabe que o nosso pior engenheiro, não nasceu mesmo para a construção civil, arrisco mesmo que ele não nasceu para se dedicar a qualquer actividade dentro da engenharia. Já não espanta que não tenha mesmo jeito nenhum para a arquitectura, pois nem sequer se lembrou que também havia cursos nessa área. Foi pena, porque talvez não tivesse perdido tanto tempo na área do desenho da construção.

Mas, cada um é para o que nasce. Também ele um dia resolveu mudar de vida. Lembrou-se que, em lugar de casas feias, quando lhe tinham encomendado palácios, devia reconstruir um país. Então, deixou a engenharia para os economistas, deixou os desenhos pirosos para os políticos que não gostam dele e deitou mãos à obra. Obra para a qual não precisou de licenças camarárias, e lá vai disto.

Hoje, até já nem liga nenhuma às repreensões que lhe chegam de todo o lado, às críticas que ouve todos os dias, nem aos recados que, volta não volta, lá vêm do famoso professor que, lá está, também não nasceu para mandar recados. Longe, muito longe, vão os tempos em que o engenheiro afinava quando um simples burocrata ou não, camarário ou não, lhe chamava incompetente.

Bom, o meu estudo mandrião fica por aqui, não sem referir que tudo o que tem de ser, tem muita força. Mais do que a convicção de que cada um é para o que nasce, está provado que cada um tem de saber trepar na vida, muitas vezes a pulso, por vezes com voltas e reviravoltas, contra as vozes daqueles que nunca souberam o que é isso.

Vale muito mais começar a vida fazendo umas asneiras a trabalhar, tendo em mente chegar onde a vontade e o esforço são compensados, que passar a vida sem fazer nenhum, a olhar ou a espiolhar o passado dos outros. Assim, é que se não vai a lado nenhum, apesar de estar provado que ninguém pode ter nascido apenas e só para isso.