Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

Sei perfeitamente que a maior parte dos cidadãos não gostam nada da confusão, mas então não percebo porque estão constantemente a meter-se nela. Ou, no mínimo, a interessar-se pela sua propagação, que é como quem diz, os cidadãos adoram tudo o que sejam coisas ou actos de que não percebem patavina.

Não percebem mas são interventivos, à boa maneira de participação cívica, nem que seja para demonstrar que todas as causas são boas para meter barulho, lá está, para meter a inevitável confusão.

Afinal, que coisa esquisita é essa a que chamamos confusão. Talvez seja a melhor maneira de demonstrar que somos cidadãos interessados, nem que o nosso interesse seja apenas em agradar a alguém ou, muitas vezes, em mostrar desagrado por alguém. Porquê? Ora aí é que está o mistério, mas bem me parece que ele reside precisamente nos interesses.

O pior é que temos muita gente a meter, ou a querer meter o bedelho onde não é chamado, criando a confusão no espírito de quem não percebe, ou não quer perceber, que uma sociedade organizada tem regras, tem de ter regras, a começar pelo cumprimento das leis, que alguns querem ver sempre e só aplicadas a quem lhes dá gozo.

A mim, por exemplo, faz-me uma grande confusão ver pessoas que sei que são cultas e inteligentes a raciocinar como simples ignorantes e a roçar uma certa estupidez. Das duas, uma. Ou não são aquilo que eu pensava, ou estão a representar um papel para o qual têm demasiadas aptidões.

Parece que este país deveria ser obrigatoriamente comandado a partir da rua, local aonde desceram pessoas ilustres, ou tidas como tal, porque não conseguiram impor-se nos locais próprios onde se tomam as decisões, ou onde se criticam legitimamente, as decisões também legitimamente, tomadas por outros.

Legítimo não é com certeza querer mandar onde outros mandam, querer ordenar a quem tem por função dar ordens, querer destruir aquilo que alguém já construiu, no desempenho das suas atribuições. A contestação tem regras, tal como a decisão também as tem. A grande confusão resulta de se não respeitarem essas regras.

É evidente que, se a confusão existe, é porque ela interessa a alguém logo, alguém se aproveita dela para retirar, ainda que sub-repticiamente, os benefícios que de outro modo não conseguiria. Porque na confusão ninguém manda, levando a que cada um se oriente como pode, sabendo que ninguém arrisca pôr termo ao estado de confusão.

A verdade é que toda a gente tem ganas de mandar, mesmo aqueles e aquelas que não mandam nada lá em casa, mas fora dela, aí a conversa é outra.

Os políticos desunham-se por mandar uns nos outros, como se todos tivessem um mandato claro do povo para se arvorarem em seus representantes exclusivos. A verdade é que até os de representação insignificante, se põem em bicos dos pés para tentarem colocar-se à altura dos que têm poder para decidir. Mas, na hora da decisão, todos se julgam absolutamente e incontornavelmente poderosos.

Depois há aquela guerra santa entre órgãos de soberania. Todos, também aqui, querem mandar uns nos outros. Talvez desconheçam o significado da palavra soberania e do termo soberano. Se todos são soberanos tomem as suas decisões e deixem os outros em paz, já que descanso é o que nenhum deles quer que os outros tenham.

Já não bastavam as descoordenações estratégicas que sucederam às cooperações do mesmo nome, pelo que vieram as birras entre os parlamentares e os homens da justiça, como se não fossem já preocupantes as guerras intestinas entre estes. A sede de poder, do mau poder, do poder de querer ter poder para tudo, só pode resultar na enorme confusão que vai por aí.

Quem quer mandar em tudo, acaba por não mandar em nada. E quando ninguém manda em nada, é a confusão total que reina. É caso para perguntar, mandas tu ou mando eu? Nem eu, nem tu, nem eles.