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afonsonunes

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14 Abr, 2010

Chovendo no molhado

Mas que ano este, dizem todos aqueles que estão fartos de tanta chuva que caiu e continua a cair por todo o lado deste cantinho meio cercado pelas ondas do mar que, volta não volta, lá vão invadindo uma boa parte da outra metade. É por isso que andamos todos húmidos e, de vez em quando, até dá para muitos se divertirem a chapinhar na lama, que é a parente porca da chuva.

Como diria o meu compadre alentejano, continua chovendo no molhado e não há meio de se poder ver o campo semeado. Em boa verdade é o país todo que anda encharcado e nem por isso os profetas da casa deixam de regar a toda a hora, como se um gozo extra terrestre lhes regalasse o espírito por verem tudo a meter água, da forma mais natural que se possa imaginar.

Por esses campos fora, por entre os muitos que se encontram abandonados, já se vão vendo sinais de sistemas modernos de rega, como a mangueira ou a gota a gota, a aspersão ou os intermináveis canais, que são autênticas redes de meter água nas terras ressequidas do interior e também um meio de exaurir cada vez mais as nascentes naturais através dos furos que, cada vez mais, sugam a água de profundidades maiores.

Paralelamente, à superfície, a rega linguística é uma realidade que tem crescido muito com o tempo, como se a secura gutural, a garganta seca, levasse a uma necessidade de limpeza dos canais através da libertação anormal da voz, ou de outros meios de rega, casos da escrita, da imagem e do som, usados pelos mais sofisticados regadores, uns profissionais, outros amadores em actividade exclusiva.

E quando as torneiras se abrem, cuidado, pois todos sabemos como sai asneira da grossa e então, lá ficamos encharcados no meio de tanto chover no molhado ou debaixo dos regadores de crivo grosso, ou ainda, à mercê de jactos de línguas húmidas, nem que se apresentem sob a forma aparentemente suave de simuladores de nevoeiro.

Confesso que já tenho muita dificuldade em distrair o olhar ou sossegar os ouvidos, pois essa frase chata e espalhada por toda a parte repete-me teimosamente que não deixa de chover no molhado, quer tente olhar para a rua, onde só vejo guarda-chuvas abertos, quer tente ver umas imagens de televisão, onde o nevoeiro é permanente.

Quem diz televisão, diz rádios e jornais onde, salvo raríssimas excepções, todos os assuntos vão dar àquela chatice repetitiva de todos os dias e de todas as horas que é, autenticamente, chover no molhado. Chego a perguntar a mim mesmo porque razão, eles e elas, não enchem de vez a insaciável barriga, tal como eu já estou farto até às orelhas.

Chover no molhado é assim uma espécie de tortura provocada por aqueles e aquelas que falam, falam, falam, mas não dizem nada. Sim, porque todos os dias e a todas as horas eles e elas não acrescentam nada de novo àquilo que estão fartos e fartas de repetir. Se eles e elas gostam assim tanto de se ouvir, armados e armadas em papagaios e papagaias, que vão gozar os seus prazeres para um local íntimo, para que seja exclusivamente deles ou delas. 

Seria um acto de extrema simpatia se se lembrassem de mim, deixando-me a milhas de distância dos seus prazeres, para que eu também pudesse ter os meus momentos de gozo, bastando lembrarem-se de que eu já não os posso ver nem ouvir. Por isso lhes faço um apelo, por favor, poupem-me, que eu já sei de cor e salteado o vosso papaguear.

Chover no molhado é também fazer este e outros apelos que venham, seja lá de onde for, pois para eles e para elas é muito mais importante o bafio que emana das águas turvas que se acumulam à superfície, porque a terra já não come nem engole tanta porcaria que não param de lhe lançar em cima.

Enfim, esperar que alguém lá de cima olhe cá para baixo e tenha dó de mim, é coisa que não cabe cá nas minhas cogitações, o que me leva a seguir o lema, se não os podes calar, levanta a voz como eles. Assim sendo, também continuo a regar, contribuindo para que continue eternamente, chovendo no molhado.