Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

18 Abr, 2010

Marcha lenta

Acho muita piada às marchas lentas nas auto-estradas que são, precisamente, para ser percorridas em marcha veloz, através do pé pesado sobre o acelerador. Estes lentos, é quase certo que, fora das auto-estradas, onde deviam ser mesmo lentos, aceleram que nem uns tontinhos, coisa que eles julgam que não são mesmo.

Cá para mim, lentos de raciocínio são os que usam a lentidão para protestar, seja lá onde for, pois certamente que ainda não fizeram contas ao combustível que os seus carros gastam em regime lento, fazendo quilómetros e mais quilómetros, só para terem o prazer de buzinar contra quem nem sequer está a ouvi-los.

É certo que eles contam com as televisões para lhes dar a sensação de que, assim, toda a gente vai ligar muita importância a uma coisa que, em muitos casos, só conduz a que as televisões sejam desligadas, principalmente, por todos aqueles que ainda não têm carro, e por todos aqueles que pensam que nunca o poderão ter.

Depois há aqueles que sabem quanto lhes custa largar a preciosa massa para uns litritos de gasosa para ir trabalhar, não compreendendo quem tanto se queixa que o preço dela é uma exorbitância e depois ande a desperdiçá-la daquela maneira inglória. Dá vontade de dizer que, para esses, devia haver um preço extra especial.

No meu modesto entender esses protestantes deviam antecipadamente fazer uma sondagem, ainda que muito discreta, a um membro do governo, no sentido de saberem se poderiam ter alguma esperança de que a marcha lenta produziria os efeitos desejados. Se deparassem com umas reticências, que é como quem diz, umas hesitações, então era de ir para a frente e em força.      

Se, pelo contrário, essa sondagem fosse considerada objectivamente uma pressão ilegítima, então aí havia que recuar de imediato na táctica e, em lugar da marcha lenta, deviam avançar rapidamente com uma marcha a duzentos à hora, para que nem a polícia os pudesse acompanhar ou mandar parar.

Assim é que se via quem é que tinha maior força e determinação, se os marchantes endinheirados, se o governo teso que nem um carapau seco ao sol da Nazaré. Sim, porque em marcha lenta, há muitos automobilistas que desligam o carro nas descidas, o que é batota nítida no combustível que, assim, prejudica o estado nos impostos.

A marcha a duzentos à hora tinha a grande vantagem de não prejudicar os utilizadores normais das auto-estradas, aqueles que vão nas calmas e seriam ultrapassados pelos marchantes com toda a naturalidade.

Assim, sim, estes dariam um sinal claro e inequívoco ao governo, de que estão em condições de gastar o combustível que for preciso, fazendo o governo ponderar bem, se pode prescindir de tão bons pagadores de impostos através do consumo desse precioso combustível.

É por isso que quem protesta tem de saber protestar. Por exemplo, é preciso saber fazer contas de sumir. Nunca se deve andar a tentar manipular o governo com exigências baratas, pois é sabido que os governos não se contentam com pouco, quando se trata de receber, nem se ralam com muito, quando é o protestante que paga.

Essa coisa de dizerem que protestam para que o governo os oiça é uma treta, pois sabem muito bem, que não há maior surdo que aquele que não quer ouvir. É exactamente a mesma coisa que acontece quando os protestantes também não querem ouvir as teimosias do governo.  

Bem sabemos que neste país é tudo lento, a começar pelos cem de Praga, que já andam na estrada há que tempos e não sabem ainda quando chegam a casa, apesar de estar entre eles o nosso presidente e a nata empresarial, tudo gente que, normalmente, não é capaz de estar quieta.  

O governo é lento que se farta, pois não há meio de convencer os aceleras de pé e de língua de que também têm de ser mais lentos, para não estarem a destoar desta calmaria onde dizem que nada se faz, nem nada deixam fazer.

Porém, de todos os mais lentos, são todos aqueles que se ultrapassam a si próprios, principalmente, quando metem a marcha atrás, não reparando que estão cada vez mais longe da linha da meta. Depois, dizem que vão em marcha lenta.