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afonsonunes

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Os oficiais das Forças Armadas que planearam o 25 de Abril tiveram muito bom gosto nas opções que tomaram, no sentido de transmitirem ao povo português, um sentimento de confiança e respeito por valores até aí praticamente desconhecidos, pois tudo o que se fazia nunca tinha em vista o benefício desse mesmo povo.

De bom gosto foi a escolha dos cravos vermelhos para enfiar nos canos das espingardas. Podiam ter escolhido rosas vermelhas, amarelas ou alaranjadas, tal como podiam ter decorado esses canos com foices ou blocos de qualquer coisa. Não, os cravos ainda não eram de ninguém, mas eram já uma esperança de paz, fraternidade e justiça.

De bom gosto foi a escolha da Grândola Vila Morena para o arranque da caminhada para a liberdade, porque essa canção é um hino ao povo, é uma esperança de vida nova, é um cântico de vozes que caminham rumo ao futuro. Digo é, e não foi, porque ainda hoje apetece cantar essa canção com a mesma esperança de então, pois continuamos à espera de muita coisa que já devia ter chegado, mas não chegou.

São apenas dois aspectos do bom gosto dos jovens oficiais, para dizer que houve muito cuidado em evitar que actos de mau gosto pusessem em causa um acontecimento tão arriscado como perigoso, e bem sabemos como há sempre quem tenha mau gosto e uma tendência doentia para estragar tudo o que se pretende fazer de bom.

Parece que não é preciso analisar muito do que se passou nestes anos todos de pós revolução, para nos depararmos perante a evidência dos que têm lutado pelo espírito inicial, que eu considero que têm sido muito poucos, e aqueles que viram imediatamente, mil e uma oportunidades para se transformarem em pequenos ou grandes nababos, e estes, sim, foram muitos e fizeram-se muito poderosos.

Já lá vão trinta e seis anos e, infelizmente, de ano para ano, o espírito do vinte e cinco de Abril definha, como vão definhando os cravos vermelhos, como vai deixando de se ouvir a Grândola Vila Morena, fora destes dias em que ainda há quem comemore, quanta hipocrisia vai por aí, esse acontecimento já longínquo no tempo e mais ainda na memória de muita gente.

Não vale a pena perguntar porquê, mas quem se abotoou com alguma coisa que fez com que tenha hoje o que nunca devia ter tido, justifica o desânimo de quem devia ter essa parte que teve destino abusivo.

Mas, o mais irritante de tudo isto, é que quem mais detesta o vinte e cinco de Abril, são muitos desses que se abotoaram à má fila, enquanto quem festeja com mais entusiasmo, são uma parte daqueles que tinham todos os motivos mais um, para se enfiarem em casa.

Vinte e cinco de Abril, sempre, porque o povo ficou a saber quem lhe tira o pão da boca, ficou a saber que tem mais força quando se levanta, mesmo depois de o terem derrubado. Mas, o povo sabe que andam muitos falsos populares no meio dele, para lhe surripiar o pouco que lhe chega às mãos.

O povo sabe já hoje que não é quem muito fala nele que mais se preocupa com ele. O povo já não é um rebanho de carneirinhos como já foi outrora porque, entretanto, já o tosquiaram tanta vez, que a lã se foi definitivamente. Se hoje ainda há rebanhos e carneirinhos, uns e outros já não são o povo, mas uns burocratas a quem só faltam os chocalhos pendurados no pescoço.

Vinte e cinco de Abril, sempre, mas que se tirem dele todos aqueles que lhe desvirtuaram o espírito e o converteram em mais um logro onde impera a falsa liberdade e a falsa solidariedade, sim, que se tirem dele esses traidores do povo, para que vençam os verdadeiros cravos vermelhos e se oiça de novo, alto e bom som, a Grândola Vila Morena e se enterrem de vez todas as espécies de demagogia e de atentados à dignidade de todos os cidadãos.

Cravos vermelhos, sempre.