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afonsonunes

afonsonunes

26 Abr, 2010

Os super fiscais

Só conheço duas espécies de cidadãos que não estão sujeitos a qualquer tipo de leis, ou que sejam responsabilizados pelo que fazem e pelo que dizem, contrariamente ao que acontece com todas as outras pessoas que têm sempre a justiça em cima, muitas vezes ainda antes de abrir a boca ou levantar um dedo no sentido de pretender fazer algo.

Já me interroguei muitas vezes sobre o porquê desta incompreensível situação, mas ainda não obtive uma única resposta. Estou prestes a concluir que deve ser o meu intelecto que não dá para mais. Mas, se assim for, pergunto-me mais uma vez porque será que ainda não descobri ninguém mais esperto que eu, que se antecipe a responder às minhas perguntas?

Como já tenho ouvido dizer que o sol quando nasce é para todos, pensava que, do mesmo modo, todos estavam obrigados a respeitar os mesmos princípios e a não praticar as mesmas asneiras. E pensava também que uma asneira é sempre uma asneira, isto é, continuo a pensar que, sempre que um asno abre a boca, é certo que saiu uma asneira.

Os meus pensamentos andam mesmo pela hora da morte. Porque a primeira espécie de cidadãos que tem o privilégio de ‘asneirar’ sem que daí lhe venha qualquer problema, são os caça fantasmas, fantasmas que eles inventaram, que insistem que há, que viram, e até são capazes de jurar pela vida sabe-se lá de quem.

Alguns até dizem que são jornalistas, coisa que não entra cá na minha moleirinha, mesmo sabendo que têm sempre uns fiéis seguidores que até são capazes de jurar que eles são deuses que foram encarregados por um deus supremo, de fazer justiça divina neste mundo. Daí que estejam inebriados por essa visão celestial que lhes tolda a vista neste reino terráqueo.

A outra espécie de cidadãos a quem ninguém pode pedir responsabilidades pelas asneiras que dizem e males que provocam, são uma boa parte dos deputados, ditos representantes dos seus eleitores, coisa que custa a encaixar na minha já citada moleirinha. Sim, porque não acredito que alguém com ela no sítio, aceite pensar como eles, excepto os seus inspiradores e chefes de fila.

 Alguns deles acumulam tal variedade de tachos, que são prova de uma cultura profissional muito diversificada, não se compreendendo porque são tão dados à asneira na apreciação de casos simples e de compreensão comum, como se tivessem palas na cabeça a dirigir-lhes o discernimento no sentido único da dita.

Os citados inventores de casos e estes deputados de compreensão acima da média, têm por missão, uma delas, claro, desempenhar o ingrato papel de super fiscais de toda a gente sem, contudo, ninguém conhecer quem lhes deve fiscalizar as suas delicadíssimas actividades. Mesmo quando se dão ao luxo e à clarividência de ‘asneirar’ descaradamente.

Dizem que são poderes independentes. Mas têm o privilégio de se meterem com outros poderes igualmente independentes. Se podem entrar na independência de outros poderes, é lógico que aceitem que haja reciprocidade de procedimentos, sujeitando-se à competência devida àqueles que pretendem subordinar. 

É o caso das comissões de inquérito que pretendem antecipar-se à justiça, exigindo todos os elementos de investigação que esta tem em seu poder, para poder julgar antes dela. Parece-me de todo aceitável, que a justiça também possa chamar a depor os deputados que metem o pé na argola, bem como os seus chefes, e os inventores de coisas que nunca aconteceram, ou seja, os já citados caça fantasmas.

Sugiro pois, que todos os poderes independentes possam abrir inquéritos, e sugeria também, desde já, que o primeiro desses inquéritos averiguasse, no âmbito do poder judicial, porque razão o Dr. Oliveira e Costa não respondeu perante os deputados que o chamaram a depor, sendo então entendido que tinha direito ao silêncio.

Por outro lado, o Dr. Rui Soares, também chamado a depor, não só não tem direito ao silêncio, como ainda é alvo de uma queixa-crime por desobediência qualificada.

É claro que são coisas completamente diferentes. Pois são. Um é do PS, o outro é do PSD. Muito importante. Um provocou um rombo de milhões que meteu em casa dele e dos amigos que, por acaso, parece que nenhum deles era do PS, enquanto o outro pensou num negócio que não chegou a realizar. Isto, sim, é um crime horrendo, e se ele concretizasse esse negócio, teríamos de voltar à pena de morte para que a justiça fosse realmente justa.

São esses deputados e os caça fantasmas, que falam a toda a hora na verdade, mas nunca quiseram saber a verdade das escutas a Belém, lembram-se? Pois eu até me lembro que toda a gente já esqueceu, a verdade de um honesto e consciencioso assessor do presidente, que não teve o azar de se ver envolvido na mais pequena fuga, tal como ninguém lhe chama nomes engraçados vivendo, por isso, perfeitamente calmo e tranquilo. Claro que, como ele, há muitos outros companheiros e amigos. Olha se fossem camaradas…

Há muito tempo que sei que na política não há anjinhos. Mas não queiram que nós sejamos os anjinhos que eles não são. Daí que, hoje, o sectário sou eu. Também tenho esse direito, apesar do sorriso amarelo dos sectários super fiscais.