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afonsonunes

afonsonunes

28 Abr, 2010

juro que menti

 

Tenho perfeita consciência que pus o país em alvoroço ao anunciar com toda a pompa e circunstância que seria eu o próximo presidente da república. Como todos os portugueses sabem perfeitamente que eu nunca minto, foi inevitável esta onda de manifestações de apoio incondicional em que me vi envolvido.

Porém, quando acordei e me apercebi de que estava no meio da tempestade, tentei de imediato colocar os pontos nos ii mas, não sei bem como, já toda a gente sabia do meu sonho lindo e depressa compreendi que era tarde demais para apagá-lo. Não havia água nem espuma nem gesto mágico que o fizessem evaporar-se.

Ainda jurei por todos os santinhos que tinha mentido, mas ninguém foi nessa. Houve logo quem me repreendesse ferozmente, afirmando convictamente que era impossível ter mentido. Porquê? Porque nunca se viu ninguém mentir enquanto sonhava, desde que estivesse a dormir.

Sim, porque há quem sonhe acordado, mas não foi o meu caso. E lá fiquei entalado no meio de um sonho e de uma mentira, completamente incapaz de provar que tinha mesmo mentido. Mas, que culpa tenho eu que queiram à viva força que eu diga que não menti? Tudo isto porque enfiaram lá na deles que eu nunca poderia ser um mentiroso vulgar.

A partir daí caíram em cima de mim com as mais indecorosas provas de que era impossível eu ter mentido. Um dos meus amigos logo me atirou à cara que tinha a certeza de que eu estava a tentar fazer-me passar pelo governante que já bateu todos os recordes de auto acusações. Aquele que está exausto de dizer que mentiu, que nunca disse uma única verdade, e toda a gente diz que não. Ora, não haverá aqui uma outra maneira de mentir?

Mesmo assim, juro que menti, apesar do meu melhor inimigo já me ter mandado uma mensagem via telemóvel, dizendo que ficaria muito chateado comigo, se eu insistisse nessa balela, ameaçando-me com um inquérito sumaríssimo se não arrepiasse caminho. É fácil de perceber a triste situação em que me estão a envolver, só porque quero mesmo ser mentiroso declarado.

Tudo isto parece um desejo esquisito da minha parte, mesmo a tender para o inexplicável, mas não é. Até se pode resumir em poucas palavras. Estou farto de não pregar uma mentirinha como toda a gente faz. Estou mesmo farto de não ser como as outras pessoas vulgares, pois eu adoro a vulgaridade. E o vulgar é mentir.

Ora, se toda a gente mente, porque raio de razão têm de estar sempre à espera que eu seja o único verdadeiro neste mundo de mentiras? Estou mesmo tentado a dizer que já fui felicitado pelo presidente em comício e pelo primeiro em desperdício, através de mensageiros de viva voz, por causa das escutas, ambos vivamente satisfeitos pelas minhas novas funções a assumir em breve.

Sempre quero ver até que ponto continuam a dizer que eu não minto. Mas eu juro que estou a mentir. O problema é que ninguém acredita em mim. Não, não sou um infeliz por isso. Era só o que faltava, pois já me têm dito que com a verdade vos engano.

Por isso cá vou mentindo à minha maneira.