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afonsonunes

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03 Mai, 2010

A festa da raiva

Muita gente falou em festa no Dragão antes da batatada. Como se houvesse algum indicador de que era mesmo de festa que se estava à espera naquele estádio e arredores, na tarde/noite de domingo, em que devia apenas acontecer um jogo de futebol, animado, viril, dentro de uma sã rivalidade, como deve acontecer em tudo o que é desporto.

O que não devia acontecer era fazer desse jogo de futebol um descarregar de frustrações do ano inteiro, fazendo crer que estava em causa a honra de jogadores, de um clube inteiro, pior, de uma região que até tem fama de ser, e é, ordeira e pacífica. Aquela mensagem, falsa ou verdadeira, foi a que passou e aconteceu o muito, do pouco que nos mostraram.

É o costume, quando as misérias se passam diante dos olhos daqueles que só estão interessados em mostrar o que lhes convém, bem revelador do espírito isento de tantos intrusos que andam onde não fazem falta nenhuma. Mas, são eles que acabam por infectar a ideia de que a cidade e o norte são gente de bem.

É evidente que uma andorinha não faz a primavera, tal como os muitos vândalos não conseguem superar a grande maioria das pessoas que sentem repúdio pelas hordas que andam e se exibem ao seu redor.

O que é de lamentar é que quem fala de festa antes destes eventos, não tenha a coragem de tomar as providências que se impõem para limpar de vez estes ambientes, indo às origens e aos responsáveis que todos conhecem, em primeiro lugar, e dar caça, a sério, aos vândalos que são sistematicamente ignorados, após os actos de vandalismo.

Tudo porque o futebol se tornou um negócio de vigarices, e quem se instalou no centro do lucro, não hesita em recorrer a todos os meios para não perder o ouro que o sustenta. E a rota do ouro tem de ser mantida, mesmo recorrendo a redes douradas, que nada têm a ver com as redes onde se marcam e se sofrem os golos das vitórias ou das derrotas.

O nosso país está enredado por todos os lados e quem se meter na rede, ou a ignora e é ajudado a sair, ou está preso e pescado em pouco tempo, com gritos de raiva, com dentes cerrados e esgares medonhos à sua volta, como se de um ritual de morte se tratasse.

Depois, no meio de tudo isto, vemos a coragem da cobardia, sim, ela existe, quando, por exemplo, se mostram imagens inúmeras vezes repetidas, sem uma palavra de comentário, sem um ângulo diferente mais esclarecedor. Quando o agressor arma em vítima, parecendo que a justiça divina o persegue inexoravelmente. Quando não há uma palavra recriminadora por parte de quem está metido nisso até às orelhas.

Estou em crer que ainda ninguém pensou que estes incidentes mostram bem à evidência como é de frágil confiança o sistema de segurança contra estes grupos de selvagens que actuam há muito no futebol, e não só, em roda livre, mas que são sempre os mesmos, e sempre ignorados, se não mesmo protegidos. Talvez, digo eu, não fosse difícil descobrir por quem e porquê.

Já agora, vem aí o Papa dentro de poucos dias. Vai andar por lá, no reino sacro santo de outro papado. É provável que as atenções de quem de direito estejam mais refinadas, mais exigentes, mais interessadas.

Mas, atenção, não basta dizer que está tudo sob controlo. Ontem toda a gente sabia que havia um acontecimento de alto risco. Todas as autoridades disseram que estavam preparadas para garantir a segurança a que as pessoas de boa fé têm direito. Foi o que se viu, do pouco que nos mostraram e menos ainda do que nos falaram.

Quando se falar de festa, quando se tratar de festejar qualquer coisa, é bom que toda a gente saiba que não é bonito nem salutar fazer festas com os rostos crispados de raiva e com as mãos cheias de pedras para atirar. Restou a consolação a esses indigentes, que salvaram a honra e ganharam a salvação compensadora de tudo o resto que perderam ao longo do ano. Ficaram felizes, porque descarregaram a bílis já empedernida.

Mas, cuidado, com o tempo, isto ainda degenera em festa com pistolas, como se estivéssemos no antigo reino dos cowboys.